A concentração de votos em Mato Grosso nas últimas eleições foi avaliada pelo analista político João Edisom de Souza como uma das maiores da história do estado nos principais cargos em disputa. Em entrevista ao MidiaNews, Edisom apontou sete características que, segundo ele, ajudam a explicar este fenômeno.

Eles são conhecidos antes da campanha. O eleitor não precisou ‘descobrir’
Como exemplo da concentração de votos em Mato Grosso, o analista citou os 60,77% dos votos válidos obtidos pelo governador reeleito Otaviano Pivetta (Republicanos). No Senado, Mauro Mendes (União) recebeu 33,21% dos votos, e José Medeiros (PL), 27,35%. Juntos, os dois eleitos somaram mais de 2,1 milhões de votos.
A concentração também se manifestou nas eleições proporcionais. Das oito cadeiras de Mato Grosso na Câmara dos Deputados, cinco eleitos receberam mais de 100 mil votos e concentraram cerca de 40% da votação entre os candidatos. Coronel Fernanda (PL) liderou a disputa, com cerca de 205 mil votos.
Na Assembleia Legislativa, dez dos 24 eleitos ultrapassaram 50 mil votos. Max Russi (Podemos) foi o mais votado, e seu partido conquistou seis cadeiras, formando a maior bancada da Casa a partir de 2027.
Fatores que explicam a concentração de votos
A primeira característica apontada por João Edisom é o grau de conhecimento dos candidatos antes mesmo do início da campanha. “Eles são conhecidos antes da campanha. O eleitor não precisou ‘descobrir’ esses candidatos durante os poucos dias de campanha”, disse Edisom.
O segundo fator é o que o analista chama de “identidade compreensível”: candidatos associados de forma clara a grupos, ideias ou trajetórias políticas. Edisom exemplificou: “Mauro Mendes e Pivetta estão associados à continuidade administrativa e a setores produtivos, e Max Russi reúne mandato, estrutura parlamentar e capilaridade municipal”. Ele acrescentou que “Coronel Fernanda e Zé Medeiros têm posicionamento conservador bastante definido; Rosa Neide e Lúdio possuem identificação clara com a esquerda”.
O terceiro fator é a capacidade de representar uma pauta ou corrente política facilmente reconhecida pelo eleitor. “Eles representam alguma coisa reconhecível. Segurança, agronegócio, servidores, educação, saúde, conservadorismo, bolsonarismo, lulismo, gestão ou municipalismo”, afirmou Edisom. Na avaliação do analista, candidatos que tentam representar “todo mundo” podem ter mais dificuldade para criar identificação com segmentos específicos do eleitorado. Esse fenômeno de concentração de votos também teria sido impulsionado pelo perfil conservador do eleitorado de Mato Grosso. Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 65,18% dos votos no Estado. Segundo João Edisom, esse comportamento também repercutiu nas disputas estaduais e proporcionais, beneficiando nomes como Pivetta e Coronel Fernanda.
Marca e capilaridade política na concentração de votos
Os quatro fatores restantes estão ligados à comunicação, à capilaridade política e à trajetória dos candidatos, segundo o analista.
O quarto é a transformação do nome do candidato em uma marca reconhecida pelo eleitor. Segundo João Edisom, casos como “Coronel Fernanda”, “Coronel Assis”, “Zé Medeiros”, “Lúdio”, “Max Russi” e “Mauro Mendes” exemplificam esse processo.
O quinto é a existência de redes territoriais ou sociais. Prefeitos, vereadores, lideranças locais, categorias profissionais, igrejas, movimentos, servidores, sindicatos, produtores rurais e bases municipais funcionam como redes de confiança e ajudam na disseminação das candidaturas.
O sexto fator, de acordo com o analista, é a simplicidade do discurso e a facilidade de identificar o que cada candidato representa. “Significa que o eleitor consegue responder rapidamente: ‘o que esse candidato representa?’”, afirmou Edisom.
Por fim, João Edisom apontou a trajetória política. Segundo ele, a presença de candidatos com mandato ou experiência no Executivo reduz o desconhecimento do eleitor sobre quem está na disputa. “Boa parte deles possui mandato ou trajetória executiva. Isso reduz a assimetria de informação: o eleitor dispõe de histórico para avaliar o nome”, disse.








