A origem da amamentação e das estruturas utilizadas para beber e engolir alimentos ganhou novas pistas a partir de um fóssil de aproximadamente 165 milhões de anos encontrado na China. O exemplar pertenceu a um animal que viveu durante o período Jurássico e integrava um grupo de parentes antigos dos mamíferos. Batizado cientificamente como Megacauda sungei, o espécime foi localizado na região da Mongólia Interior, uma área autônoma situada no norte da China, preservado em rochas que datam entre 163 milhões e 168 milhões de anos. O estudo com as descobertas foi publicado na revista científica Nature.
A relevância científica do achado reside na rara preservação de pequenas estruturas ósseas da garganta, partes anatômicas delicadas que dificilmente resistem ao tempo em registros fósseis tão remotos. Nos mamíferos contemporâneos, esses ossos e os músculos associados desempenham papel essencial no controle dos movimentos da língua, do palato e na condução de líquidos e alimentos até o trato digestivo. A análise revelou que esses mecanismos de sucção e deglutição já operavam nesses animais primitivos muito antes do surgimento das espécies modernas de mamíferos.
A origem da amamentação e as estruturas da garganta
A origem da amamentação está ligada a um conjunto anatômico complexo que raramente deixa marcas no registro geológico. No caso do Megacauda sungei, os ossos da garganta foram conservados em posicionamento suficiente para permitir que os pesquisadores reconstituíssem parcelas da anatomia e realizassem comparações com espécies vivas atualmente. A base craniana e o teto da garganta demonstraram traços semelhantes aos encontrados em mamíferos atuais, como gambás e cães.
Zhe-Xi Luo, professor de Biologia Organísmica e Anatomia da Universidade de Chicago e um dos autores da pesquisa, destacou em entrevista a complexidade dessas estruturas:
“A complexa estrutura de músculos e ossos da garganta dos mamíferos é muito delicada. Os ossos que sustentam o palato mole, os músculos da garganta e a língua são todos muito pequenos e raramente são preservados nos fósseis de crânios”
. O pesquisador também explicou:
“O Megacauda possui as mesmas estruturas ósseas que sustentam os músculos da garganta e dão suporte ao movimento da língua nos mamíferos modernos”
.
Como o tecido muscular não sobreviveu ao processo de fossilização, a presença e a dinâmica funcional da musculatura foram inferidas pelos cientistas a partir da conformação óssea e dos pontos de fixação anatômica. A origem da amamentação e a sucção de leite pelos filhotes, bem como a ingestão alimentar nos adultos, ganharam assim uma linha temporal mais estendida. Segundo Luo,
“Isso leva a origem dessas características e funções biológicas dos mamíferos para muito mais fundo na história evolutiva. Somos mamíferos. Com esse fóssil, agora entendemos um pouco melhor nossa própria evolução”
.

Características físicas e semelhanças anatômicas
O Megacauda apresentava traços físicos peculiares decorrentes de evolução convergente. Em termos classificatórios, o animal integrava os docodontes, um grupo extinto muito próximo da linhagem ancestral dos mamíferos modernos, não sendo um ancestral direto do ornitorrinco nem pertencente a essa linhagem moderna, apesar de apresentar semelhanças morfológicas com ele.
O professor Luo detalhou a composição das formas do animal:
“O Megacauda é uma quimera moldada por duas linhas de evolução convergente. Sua pelve, patas traseiras e pés são muito parecidos com os do ornitorrinco. Mas seus dentes e mandíbulas lembram os de um predador aquático”
. O cientista também pontuou:
“As novas informações anatômicas do Megacauda lançam luz sobre dois aspectos da vida dos primeiros mamíferos: como moviam as patas traseiras e a cauda e quão bem conseguiam engolir líquidos e alimentos mastigados quando adultos e mamar quando filhotes”
.
A origem da amamentação e da mecânica mastigatória surge integrada a um corpo adaptado tanto à locomoção aquática quanto ao ambiente terrestre. O Megacauda pesava entre 1 e 2 quilos, porte comparável ao de um ornitorrinco atual, constituindo o maior mamaliaforme catalogado para o período Jurássico.
Modo de vida semiaquático e hábitos alimentares
Diferentemente do ornitorrinco moderno, que consome predominantemente invertebrados pequenos, o Megacauda contava com dentes adaptados para o corte de presas, indicando que caçava peixes, salamandras e outros animais de porte aquático. Em virtude desse perfil alimentar e ecológico, Luo comparou o modo de vida da criatura ao de lontras fluviais e à ariranha brasileira:
“Em alimentação e ecologia, o Megacauda é mais semelhante às lontras de rio. É uma versão menor e muito mais antiga, de forma análoga, da famosa ariranha brasileira. Ele é metade parecido com um ornitorrinco e metade parecido com uma lontra”
.
Os dados recolhidos indicam que o espécime se alimentava na água, mas mantinha atividades em solo firme, provavelmente abrigando-se em tocas cavadas nas margens de rios e lagos. A origem da amamentação se insere assim em um cenário ecológico amplo, uma vez que a descoberta comprova que os parentes dos mamíferos da época dos dinossauros exibiam perfis adaptativos bastante variados, abrangendo espécies nadadoras, terrestres, escavadoras, arborícolas e planadoras.








