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17 de outubro de 2026

A trajetória do futebol feminino em Mato Grosso: da proibição à elite

A história do futebol feminino em Mato Grosso é de resistência e conquistas, superando décadas de proibição e preconceito. O Mixto Esporte Clube simboliza essa evolução, disputando a Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino. A estruturação do esporte partiu do trabalho pioneiro de mulheres como Elair Dias Brito, a Dona Juju, e a influência de Zulmira Canavarros na fundação do Mixto.
O futebol feminino em Mato Grosso: da proibição à elite nacional
Sérgio Santos/MixtoNet

A história do futebol feminino em Mato Grosso é uma trajetória de resistência e conquistas, marcada pelo pioneirismo das mulheres e por décadas de proibição e preconceito. Das partidas amadoras e clandestinas à profissionalização, a modalidade superou barreiras históricas e conquistou espaço no cenário nacional.

Hoje, essa evolução é simbolizada pelo Mixto Esporte Clube, que disputa a Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino, a elite do futebol nacional.

Quando falamos de futebol masculino e feminino, percebemos que o futebol feminino tem uma dimensão muito mais cultural

Pioneirismo e a Proibição do Futebol Feminino em Mato Grosso

O caminho até a primeira divisão nacional exigiu a estruturação do esporte a partir do zero. Essa base foi erguida por mulheres que bancaram a formação das primeiras equipes femininas do estado, ainda na fase amadora. Foi o caso do trabalho pioneiro de Elair Dias Brito, a Dona Juju, à frente do Operário Várzea-grandense. Sua atuação na formação da equipe abriu caminho para a reivindicação de competições oficiais nos anos seguintes.

Esses movimentos provam que a participação feminina esteve presente na origem do futebol e dos clubes tradicionais do estado. Em entrevista ao MidiaNews, a mestranda e bacharel em Educação Física pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Francielli Evelin Lopes Silva, apontou que a presença das mulheres vem desde a fundação do futebol no estado, com a influência de Zulmira Canavarros.

A artista e musicista Zulmira Canavarros fundou o Clube Esportivo Feminino e liderou a fundação do Mixto Esporte Clube em maio de 1934, tornando-se a primeira presidente da agremiação, que hoje se destaca no cenário do futebol feminino nacional.

“Quando falamos de futebol masculino e feminino, percebemos que o futebol feminino tem uma dimensão muito mais cultural, enquanto o masculino é visto como algo mais esportivo. Então, a presença de uma mulher nesse ambiente esportivo se torna uma referência muito importante para quem vem depois. Isso porque é muito difícil se imaginar em um espaço onde não há alguém parecido com você, alguém em quem possa se espelhar”, explicou a pesquisadora.

O futebol mato-grossense começou a ganhar espaço antes mesmo da fundação do Mixto. Desde a década de 1910, a modalidade já se popularizava em Cuiabá, impulsionada por militares que organizavam equipes de relativa importância no cenário esportivo da Capital, como o 53º Foot Ball Club e o Pátria Foot-Ball. O Dom Bosco, que se tornaria um dos principais rivais do Alvinegro, seria fundado pouco depois, em 1925.

Naquele período, porém, o futebol era um ambiente estritamente masculino. Para as mulheres, qualquer aproximação com o esporte poderia ser interpretada como um desvio dos padrões morais e sociais da época.

Um registro de 1917 do jornal católico cuiabano A Cruz, recuperado em uma pesquisa histórica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revela o preconceito enfrentado pelas mulheres. Em suas páginas, o periódico ironizava as chamadas mulheres esportistas e alertava que a prática de exercícios físicos provocava “jeitos de masculinização pouco recomendáveis”.

Segundo a pesquisadora Francielli, a valorização histórica do futebol masculino em detrimento do feminino contribuiu para consolidar a hegemonia dos homens no esporte e limitar o protagonismo das mulheres.

“Existe uma pesquisa muito interessante que aponta que o futebol feminino foi vetado justamente para favorecer a ascensão do masculino. Se pararmos para pensar, nas principais modalidades esportivas de diferentes países, como o futebol americano nos Estados Unidos, o rúgbi na Austrália e o próprio futebol no Brasil, as mulheres não ocupam uma posição de destaque”, explicou.

Segundo a pesquisadora, a proibição de mulheres praticarem esportes considerados “incompatíveis com as condições de sua natureza”, prevista no Decreto-Lei nº 3.199, assinado pelo presidente Getúlio Vargas em 1941, durante a ditadura do Estado Novo, é um reflexo desse cenário de exclusão.

“O principal esporte de um país normalmente tem uma presença masculina muito mais forte. Essa pesquisa aponta que o veto à participação feminina pode ter relação justamente com isso: preservar o protagonismo dos homens e manter a masculinidade associada ao esporte. O próprio governo teria contribuído para reforçar essa masculinização do futebol”, afirmou Francielli.

As consequências dessa intervenção estatal, segundo a pesquisadora, ajudaram a moldar a percepção do público sobre o futebol feminino, influenciando até hoje a maneira como a modalidade é consumida e avaliada.

“Até hoje vemos pessoas criticando o futebol feminino, dizendo que não é tão dinâmico ou tão interessante de assistir. Mas acredito que essa percepção esteja muito mais relacionada a uma construção cultural do que propriamente à forma como as mulheres jogam”, disse.

A Resistência do Futebol Feminino no Interior

Apesar do veto, a resistência feminina encontrou sua própria brecha e o futebol se fortaleceu, se difundindo no interior do estado mesmo durante o período de repressão estatal.

Longe dos olhares da censura, o futebol feminino em Mato Grosso começava a ganhar contornos de competição organizada em Cáceres. Registros de jornais da década de 1970 revelam um cenário já consolidado no futebol de várzea, marcado não apenas pela existência de equipes estruturadas, mas também pela rivalidade entre elas.

Em 10 de setembro daquele ano, o jornal Correio Cacerense anunciava o resultado entre as equipes “Estadual” e “Vila” na categoria então chamada de ‘futebol de moças’.

A iniciativa pioneira logo foi formalizada. Em levantamento histórico feito para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pesquisadora Viviane Teixeira Silveira relatou que a prática do futebol feminino ganhou raízes em Cáceres em 1976 com a realização do 1º ‘Campeonato de Moças’. Mas foi na década seguinte, nos anos de 1980, que a modalidade foi impulsionada com o surgimento dos times “As Gatinhas” e “As Tremendonas”.

A força desses times se espalhou por toda a região, servindo de inspiração para a formação de elencos em Mirassol d’Oeste, Pontes e Lacerda, Quatro Marcos e Araputanga.

O futebol feminino cacerense é apontado por Francielli como uma mola propulsora para a modalidade e destacou que as partidas entre os times mais conhecidos da cidade tornavam-se uma “chamariz” para disputas que aconteceriam posteriormente.

“E a presença do futebol em Cáceres foi muito importante, porque, a partir daí, começaram a ocorrer jogos nas cidades vizinhas, contribuindo para a disseminação do esporte pelo interior de Mato Grosso”, afirmou Francielli.

Cuiabá em Campo e as Restrições Oficiais

Assim como ocorreu no interior de Mato Grosso, as mulheres também conquistaram espaço no futebol em Cuiabá, mesmo durante o período de repressão. Na Capital, equipes femininas se formaram e passaram a disputar partidas amadoras, muitas vezes realizadas durante eventos beneficentes.

Em 1º de maio de 1960, o jornal O Estado de Mato Grosso noticiou a organização de um evento beneficente em favor das vítimas do rompimento parcial da barragem do açude Orós, ocorrido cerca de dois meses antes, no Ceará.

A programação, prevista para a primeira semana de julho daquele ano, no Estádio Eurico Gaspar Dutra, o Dutrinha, incluía desfiles, apresentações e uma partida de futebol feminino entre equipes do Ginásio Brasil e do Colégio Estadual.

Em 1961, quando Mato Grosso e Mato Grosso do Sul ainda formavam um único estado, o mesmo periódico anunciou uma partida de futebol feminino entre equipes de Cuiabá e Campo Grande, cidades que já mantinham uma rivalidade histórica e que hoje são capitais dos dois estados. O confronto também integrava um evento beneficente, desta vez em favor de “crianças pobres”.

Mesmo diante das restrições e sem reconhecimento oficial, as mulheres resistiram e continuaram entrando em campo.

A persistência das jogadoras, no entanto, provocou reações das autoridades esportivas. Em 1973, o jornal O Estado de Mato Grosso publicou uma orientação do Conselho Nacional de Desportos (CND) dirigida à Federação Mato-grossense de Desportos, fundada em maio de 1942, para impedir a realização de partidas femininas.

“Reconhece o CND que os organizadores de tais competições usam de toda espécie de artifícios para insistir em tais práticas, procurando evitar as sanções que fatalmente caem sobre as associações filiadas, mas, de algum modo, tem ocorrido certa cessão de locais ou materiais desportivos, o que não deixa de infringir uma espécie de colaboração, como também os dispositivos legais […]”, diz trecho da nota.

Três anos depois, em 1976, o mesmo jornal publicou uma reportagem intitulada “Futebol Feminino é Proibido no Brasil”. O texto destacava que a modalidade estava expressamente proibida desde 1965, o que impedia sua promoção por entidades esportivas oficiais.

Apesar disso, a publicação apresentava uma brecha para a realização das partidas, desde que não fossem reconhecidas como competições oficiais.

“Nada impede a produção de shows em que mulheres uniformizadas disputem partidas de futebol ou que em campos particulares ou praias organizem-se em times de futebol feminino para partidas sem vínculo oficial”, dizia a reportagem.

A contradição ficava ainda mais evidente na própria edição do jornal. Logo acima do texto sobre a proibição no Brasil, havia uma reportagem intitulada “Na Europa já é quase uma profissão”, que abordava o avanço da profissionalização do futebol feminino no continente europeu.

Enquanto jogadoras de outros países começavam a conquistar reconhecimento e espaço profissional, as brasileiras ainda precisavam recorrer a partidas informais e eventos beneficentes para continuar praticando o esporte.

A proibição só foi revogada em 1979, quase quatro décadas após o primeiro decreto. No entanto, o futebol feminino só foi regulamentado pelo CND em 1983, permitindo a organização formal de competições. O processo de retomada da modalidade ganhou força nos anos seguintes, inclusive após o fim da ditadura militar, em 1985.

Para Francielli, as décadas de restrições e a ausência de competições oficiais provocaram prejuízos profundos ao desenvolvimento técnico e tático do futebol feminino brasileiro.

“É um prejuízo muito grande, tanto técnica quanto taticamente. Quando você não tem, em um país tão grande como o Brasil, a possibilidade de trocar experiências e desenvolver a competitividade dentro do esporte, acaba perdendo muito em termos de evolução. Então, não é apenas como se o futebol feminino tivesse parado de progredir, mas como se tivesse regredido”, ponderou a pesquisadora.

Da Resistência à Elite Nacional

Embora tenha se desenvolvido durante décadas à margem do reconhecimento oficial, o futebol feminino mato-grossense conseguiu superar parte das barreiras históricas e conquistar espaço na elite nacional. As Tigresas, equipe feminina do Mixto Esporte Clube, disputam pelo segundo ano consecutivo a Série A1 do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino.

Um dos primeiros marcos dessa trajetória ocorreu em 2002, quando o futebol feminino estreou como modalidade oficial na 25ª edição dos Jogos Estudantis Mato-grossenses. Na ocasião, uma equipe de Cáceres conquistou o primeiro título.

Seis anos depois, em 2008, foi criado o Campeonato Mato-grossense de Futebol Feminino. Antes, o departamento feminino do Mixto já representava Mato Grosso em competições nacionais. A ausência de um torneio classificatório, no entanto, provocava insatisfação entre outras equipes que também buscavam espaço, conforme explicou a pesquisadora Francielli.

“Acho que não dá para falar do primeiro torneio estadual sem falar da Juju. Ela era filha de um torcedor do Operário e percebeu que, nas competições nacionais, apenas o Mixto era enviado, porque não existia um campeonato estadual. Então, quando a Federação precisava indicar uma equipe feminina de Mato Grosso, escolhia o Mixto. A Juju considerava isso antidesportivo, porque a essência do esporte é a disputa”, explicou.

Elair Dias Brito, conhecida como Dona Juju, teve papel fundamental na mudança desse cenário. Apaixonada pelo Operário Várzea-grandense, foi pioneira ao investir na formação da equipe feminina do clube e passou a cobrar da Federação Mato-grossense de Futebol (FMF) a realização de uma competição estadual.

Com uma equipe estruturada, Dona Juju pressionou a entidade para que a vaga nas competições nacionais deixasse de ser definida por indicação e passasse a ser conquistada dentro de campo.

Além de atuar como dirigente do Operário, ela chegou a contribuir financeiramente para a manutenção da equipe feminina ao longo dos anos, antes da profissionalização do departamento, em 2025.

O Campeonato Mato-grossense Feminino não foi realizado em 2009 e passou a ter maior regularidade a partir de 2010. Quase duas décadas após sua criação, a competição reúne apenas cinco equipes.

O Mixto mantém o protagonismo histórico na disputa, com uma sequência de conquistas que inclui o bicampeonato de 2010 e 2011 e quatro títulos consecutivos entre 2020 e 2023.

Para Francielli, a diferença entre os clubes está principalmente na capacidade de manter projetos permanentes, em vez de formar equipes apenas durante o período das competições.

“Acho que a gestão do Mixto protege bastante o futebol feminino, mantendo o departamento mais resguardado do que acontece em outras equipes. Existem clubes que, quando o campeonato começa, reúnem várias mulheres, montam um time e disputam a competição. Se não conquistam o título, desfazem a equipe, cada jogadora volta para onde estava e o clube só volta a ter um time feminino no campeonato seguinte”, explicou.

A participação de apenas cinco equipes no Estadual, entretanto, não representa o potencial do futebol feminino em Mato Grosso. Segundo dados apresentados pela pesquisadora, a FMF contabiliza cerca de 26 equipes federadas, mas a maioria não participa da competição.

A pesquisadora aponta que os principais obstáculos para a manutenção das equipes continuam sendo a escassez de investimentos e o preconceito cultural, problemas que acompanham o futebol feminino desde o período de proibição.

“A principal dificuldade dos times femininos, tanto naquela época quanto hoje, é o patrocínio, porque nenhuma equipe se sustenta sem dinheiro. Também existe o fator cultural. Depois de quase 40 anos de restrições, as mulheres finalmente tiveram o esporte regulamentado, mas não encontraram o apoio necessário da sociedade. São dois fatores que pesaram muito e continuam pesando, tanto em Mato Grosso quanto no restante do Brasil”, afirmou.

Fomento Estadual e os Desafios Atuais

A desigualdade de investimentos entre o futebol masculino e o futebol feminino em Mato Grosso também se reflete nas premiações dos campeonatos estaduais.

Enquanto a edição mais recente do Campeonato Mato-grossense masculino distribuiu dois veículos da marca BYD, avaliados em aproximadamente R$ 250 mil, o torneio feminino não ofereceu premiação financeira ou material à equipe campeã.

Sem esse incentivo, a manutenção dos elencos depende principalmente da captação de recursos externos. Francielli destacou que a busca por patrocínios privados ainda enfrenta resistência, mas ressaltou a importância dos investimentos públicos para garantir a continuidade das equipes.

Em Mato Grosso, legislações estaduais recentes contribuíram para fortalecer os clubes e ampliar a presença das equipes em competições nacionais.

A Lei nº 11.734/2022 ampliou a possibilidade de repasse de recursos públicos a clubes femininos participantes do Campeonato Brasileiro, prevendo patrocínios de até R$ 3,5 milhões.

Já a Lei nº 11.553/2021 estabeleceu medidas de incentivo à prática do futebol feminino e à formação de atletas, incluindo a promoção de torneios, campeonatos e eventos esportivos, além da destinação de espaços para a modalidade.

Essas iniciativas integram a política estadual de incentivo ao esporte, que inclui o programa Mato Grosso Série A, coordenado pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT).

As conquistas representam uma mudança significativa na trajetória de um esporte que, durante décadas, enfrentou proibições, preconceito e falta de reconhecimento. Se antes as mulheres precisavam recorrer a partidas beneficentes e competições informais para entrar em campo, hoje equipes mato-grossenses disputam espaço entre as principais forças do futebol feminino brasileiro.

Fonte: Gazeta Digital

Cáceres No Ar

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