A cultura mato-grossense ganhou uma versão que pode ser usada como acessório. A jornalista e artesã Maricelle Lima Vieira, de 48 anos, transforma referências da região em pequenos acessórios de cultura pantaneira. Entre os elementos que inspiram suas peças estão a Viola de Cocho, a Igreja do Rosário e São Benedito, pássaros do Pantanal, onça-pintada e flores.
Cuiabana e filha de pantaneiros, Maricelle Lima Vieira encontrou na produção artesanal uma maneira de preservar aspectos ligados à sua própria história. Sua aproximação com a cerâmica começou há cerca de dois anos e meio, após um curso de cerâmica tradicional ministrado pelo ceramista Roney Ferraz.
“Desde o início, meu interesse maior foi criar peças pequenas, principalmente acessórios, mas logo percebi que poderia ir além e transformar referências da cultura e da identidade de Mato Grosso em objetos de uso cotidiano”, relata Maricelle.
Da Cerâmica Tradicional aos Acessórios de Cultura Pantaneira
A primeira experiência da artesã foi com argila. Contudo, o tamanho reduzido das peças tornava o processo de queima da cerâmica tradicional inviável financeiramente. A solução surgiu por meio das redes sociais: a cerâmica plástica, um material moldável que pode ser curado em forno doméstico, a uma temperatura em torno de 130°C. Essa mudança permitiu que Maricelle avançasse na produção e desenvolvesse uma linguagem própria para seus acessórios de cultura pantaneira.
“Hoje, meu trabalho está muito ligado ao artesanato contemporâneo e à identidade cuiabana e pantaneira. Sou filha de pantaneiros, cuiabana e mato-grossense, então essas referências fazem parte da minha história”, afirma. A intenção da artesã é que os pequenos objetos funcionem também como lembranças do território.
“A ideia é criar miniaturas que carreguem um pouco da nossa identidade e que possam ser levadas pelas pessoas para além de Mato Grosso”, explica Maricelle Lima Vieira.
Mercado de Artesanato e Bijuterias em Crescimento
A aposta de Maricelle em pequenos acessórios reflete um mercado onde joias e bijuterias artesanais ocupam uma posição relevante. Uma pesquisa do Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), divulgada em 2026, com 2,4 mil consumidores de todas as regiões do país, aponta que joias e bijuterias representam 30% dos produtos artesanais adquiridos, ficando atrás apenas dos objetos de decoração, com 40%.
O levantamento também mostra que 66% dos consumidores de artesanato são mulheres, com idade média de 37 anos. Além do aspecto estético, há espaço para produtos associados à identidade regional: 24% dos entrevistados veem o artesanato como uma forma de valorizar tradições e expressões culturais locais. A força da cerâmica é evidenciada nos resultados das grandes feiras do setor. No 22º Salão do Artesanato, realizado em São Paulo em 2026, argila e cerâmica responderam por 13,8% das principais tipologias comercializadas. O evento movimentou R$ 5,68 milhões com a venda de mais de 71 mil peças. Esses números demonstram que tanto as joias e bijuterias quanto a produção artesanal em cerâmica têm construído uma presença expressiva no mercado brasileiro, incluindo os acessórios de cultura pantaneira.
Processo de Criação: Do Molde à Pintura Manual
O tamanho das peças exige precisão no trabalho de Maricelle. Ela utiliza pequenas quantidades de massa e combina diferentes cores para cada objeto. A criação segue dois caminhos: peças inteiramente autorais, modeladas de maneira intuitiva, e reproduções de referências culturais específicas.
“Algumas peças são totalmente autorais e orgânicas. Nesse caso, começo a modelar sem um desenho totalmente definido e vou construindo a forma de maneira intuitiva. Quando chego a um resultado que gosto, procuro reproduzir aquela ideia”, relata a artesã.
Para elementos que precisam manter características reconhecíveis, como a Viola de Cocho e a fachada da Igreja do Rosário e São Benedito, são empregados moldes e cortadores. Alguns desses foram desenvolvidos especificamente para o trabalho por uma profissional que atua com impressão 3D. Contudo, o uso da tecnologia serve apenas como ponto de partida.
“Mesmo utilizando o molde para chegar à forma inicial, existe muito trabalho manual depois. Eu faço a montagem, os detalhes e a pintura à mão. Na fachada da igreja, por exemplo, cada janela, porta e detalhe precisa ser trabalhado individualmente”, explica Maricelle. Para ela, o encontro entre ferramentas atuais e o fazer artesanal define seu trabalho. “É justamente essa combinação entre uma técnica contemporânea, o trabalho manual e as referências da nossa cultura que dá identidade às peças”, completa sobre seus acessórios de cultura pantaneira.
Produção em Pequena Escala e Alcance
A produção de Maricelle ainda ocorre em pequena escala. Uma das formas de encontrar os acessórios de cultura pantaneira é na Feira do Museu de História Natural, localizada na Avenida Beira Rio, em Cuiabá, que acontece aos domingos, das 9h às 15h. A artesã também participa de feiras e eventos mediante convite e recebe encomendas pelas redes sociais, através do perfil @marilima.arteseformas.
Maricelle Lima Vieira planeja ampliar gradualmente a produção, sem descaracterizar o aspecto manual de suas criações. Para ela, as miniaturas são mais do que acessórios; funcionam como fragmentos de uma história coletiva.
“Mais do que produzir acessórios, meu objetivo é criar pequenas peças de memória e identidade, feitas à mão e inspiradas no lugar onde nasci e nas histórias que fazem parte da minha origem”, finaliza.








