O acesso gratuito a atividades culturais, englobando shows, filmes, espetáculos e exposições, emerge como a principal expectativa dos brasileiros em relação às políticas públicas de cultura. Conforme a pesquisa Hábitos Culturais, divulgada nesta quarta-feira (14), 42% dos entrevistados consideram esta a prioridade máxima para os futuros governantes. Apesar de o acesso à cultura ser um direito fundamental garantido pela Constituição Federal, o levantamento revela uma significativa desigualdade. Dados indicam que, nos últimos 12 meses, 63% dos brasileiros pertencentes às classes A e B frequentaram cinemas, enquanto apenas 18% das classes D e E tiveram a mesma oportunidade. A análise dos dados aponta que o custo, tanto de deslocamento quanto de ingressos, figura como o principal fator de desmotivação para a participação presencial em atividades culturais. Aproximadamente metade dos frequentadores desses eventos destina, mensalmente, até R$ 100 para cultura. O medo da violência também se destaca como um impedimento relevante.
Desigualdade e Barreiras no Acesso à Cultura
A coordenadora do Observatório da Fundação Itaú, Ana Maria Cardoso, enfatiza que ‘Como é possível observar por meio dos dados, o acesso à cultura realmente ainda é bastante desigual, sobretudo quando observamos pela perspectiva socioeconômica ou até mesmo de níveis de escolaridade entre os brasileiros’. Ela complementa que ‘Apesar das disparidades, tais dados não significam que pessoas das classes sociais mais baixas ou com menor escolaridade deem menor valor à cultura; ao contrário, o que a pesquisa mostra é que existem barreiras que vão além da subjetividade individual ou mesmo do gosto pessoal que interferem diretamente nesse acesso’. O acesso à cultura, um direito assegurado a todos os brasileiros pela Constituição Federal, é reconhecido pela maioria da população (68%), conforme os resultados da pesquisa. Contudo, a efetividade desse acesso é marcadamente desigual. Nos últimos 12 meses, 97% dos entrevistados das classes A e B participaram de alguma atividade cultural presencial, como shows, visitas a museus, teatros ou cinemas. Entre as classes D e E, esse percentual foi significativamente menor, atingindo 82%. A disparidade se acentua em atividades específicas; por exemplo, a ida ao cinema registrou 63% para classes A e B contra apenas 18% para D e E, uma diferença de 45 pontos percentuais. Além disso, um terço dos entrevistados (33%) relatou a ausência de opções de equipamentos culturais em suas regiões de moradia.
Principais Demandas da População
Diante deste panorama, a demanda por maior acesso gratuito se consolida como a principal. O estudo indica que 32% da população almeja a criação de novos equipamentos ou instituições públicas de cultura, como museus, teatros e cinemas. Adicionalmente, 28% dos entrevistados apontam a necessidade de melhoria, reforma, ampliação ou modernização das estruturas existentes. O financiamento e incentivo à produção cultural independente são solicitados por 26%. Cerca de 22% dos participantes pedem apoio a iniciativas culturais em favelas, periferias e comunidades tradicionais, enquanto 21% destacam a valorização e formação de artistas e profissionais da cultura. Cardoso reitera que ‘Os dados indicam que existem caminhos para avançar, tanto no que se refere à importância de fortalecer e ampliar a oferta de atividades culturais gratuitas, quanto na própria expectativa e entendimento da população sobre o direito cultural, uma vez que 32% da população dizem não saber que o acesso à cultura está garantido na Constituição e 27% afirmam não saber o que significa ter direito à cultura’.
Custo e Insegurança: Fatores Desmotivadores
O custo, abrangendo tanto o deslocamento quanto o valor dos ingressos, é o principal impedimento para a participação presencial em atividades culturais, conforme apontado por 35% dos entrevistados. Entre aqueles que reportam gastos com cultura presencial, 46% despendem mensalmente até R$ 100. Outros 14% gastam entre R$ 101 e R$ 150, enquanto 15% desembolsam entre R$ 151 e R$ 200. Uma parcela de 8% declara gastos superiores a R$ 400. A insegurança e a violência ocupam o segundo lugar (30%) entre os fatores que desmotivam a participação em atividades culturais presenciais. Outros impedimentos incluem a disponibilidade de horário (23%), cansaço e desânimo (21%), distância dos eventos (19%), lotação (19%) e falta de transporte (16%). O receio de assaltos ou furtos nas imediações dos eventos culturais é citado por 47% dos entrevistados, enquanto a ausência de policiamento nas proximidades dos espaços culturais é mencionada por 43%. Riscos de furtos ou assaltos durante o trajeto são apontados por 29%. A violência contra mulheres e o assédio em espaços culturais representam um fator crescente de preocupação, citado por 27% dos entrevistados, um aumento de 6 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior (21%). Essa preocupação é expressa por 38% das mulheres e 14% dos homens.
Sobre a Pesquisa Hábitos Culturais
A 7ª edição da Pesquisa Hábitos Culturais foi conduzida pelo Observatório Fundação Itaú, com o suporte técnico do Datafolha. O estudo envolveu 2.448 entrevistas presenciais e individuais, realizadas entre 7 e 20 de julho de 2026, em 137 municípios de todas as regiões brasileiras. Os participantes eram homens e mulheres com idades entre 16 e 65 anos, pertencentes às classes sociais A, B, C e D/E.








