MENU
22 de março de 2026

Brasil sobe 10 posições em ranking de liberdade de imprensa

O Brasil subiu 10 posições no ranking de liberdade de imprensa da RSF, alcançando a 82ª colocação. A mudança reflete a melhora no ambiente para o jornalismo após o fim do governo Bolsonaro, mas ainda há desafios como concentração midiática, insegurança e desinformação.
Fonte: hosnysalah/Pixabay

O Brasil subiu dez posições no ranking de liberdade de imprensa e chegou ao 82º lugar entre 180 países citados em levantamento da organização não governamental (ONG) Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Trata-se da melhor colocação do Brasil nos últimos dez anos. Desde o último relatório divulgado pela entidade, o país recuperou, ao todo, 28 posições. O documento foi divulgado nesta sexta-feira (3), Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

Segundo o jornalista Artur Romeu, diretor do escritório da Repórteres Sem Fronteiras para a América Latina, o resultado confirma uma tendência registrada no ano passado, com a percepção dos especialistas após o fim do governo de Jair Bolsonaro. “Foi um governo que exerceu uma forte pressão sobre jornalismo de diferentes formas, com uma postura e um discurso público orientado pela crítica à imprensa”, afirmou. Romeu contextualiza, entretanto, que a pontuação brasileira ficou praticamente estável, com acréscimo de 0,08 de 2023 para 2024, mas outros países caíram mais, o que levou à subida do Brasil.

O chefe do escritório da RSF explica que os especialistas consultados entendem que a melhora que tinha sido antecipada para o Brasil se confirmou, como cenário geral. Ele salienta que o ranking é baseado em um conjunto de indicadores que avaliam as pressões sobre a liberdade de imprensa. “Essa subida das posições é mais uma sinalização de estabilidade do que necessariamente de progresso.  É importante reforçar que se trata de uma estabilização em relação a uma perspectiva de melhora que se concretizou”, acrescenta.

A coleta foi feita nos meses de dezembro e janeiro a partir de 120 perguntas traduzidas em 26 idiomas com milhares de respondentes. “Cada especialista aborda o próprio país em que vive”, diz Romeu. Publicado anualmente, desde 2002, o ranking é feito a partir de índices que consideram questões políticas, sociais e diferentes ordens econômicas. Romeu explica que o documento é utilizado por organizações internacionais como o Banco Mundial, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e agências de cooperação internacional como um indicador de referência sobre as garantias para que os jornalistas possam atuar livremente.

Distensionamento

A posição do Brasil, segundo Romeu, estaria relacionada a uma postura pública de reconhecimento e valorização do trabalho da imprensa e se traduziu inclusive em medidas concretas como a criação, pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), do Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores. “Houve melhorias também no âmbito da garantia de acesso à informação e à transparência pública. Houve um distensionamento em parte desse cenário. Então, isso tudo tem um reflexo nas condições que estão colocadas para os jornalistas e os meios de comunicação operarem no país.”

Arthur Romeu cita também que o Brasil estruturalmente mantém concentração midiática, na mão de poucos grupos, e que os problemas econômicos deixam o setor mais vulnerável. “Isso se reflete na capacidade de ingerência ou de pressão sobre os veículos”, observa. Uma pressão que vem de agentes econômicos como anunciantes, que exercem ação sobre as linhas editoriais dos veículos.

Insegurança

Outro ponto negativo que foi levado em conta no relatório tem relação com a percepção de insegurança. “O Brasil é o segundo país da América Latina com o maior número de jornalistas assassinados e com uma cadeia de violências muito ampla. São ameaças, perseguições, assédio oficial e moral e agressões físicas, por exemplo.” Nesse sentido, a violência contra a imprensa se traduz na consolidação de um ambiente mais desfavorável para a profissão.

Desinformação

Outra questão central, para avalia Artur Romeu, é a necessidade de regulação das plataformas para garantia da integridade informativa, em um cenário de desinformação. “O canal de distribuição não é mais a banca de jornal na esquina. As grandes plataformas operam ainda no Brasil num cenário ainda marcado por um processo de, supostamente, autorregulação.”

Ele considera que exista um vazio regulatório, com o não aprovação até hoje do Projeto de Lei das Fake News (PL 2.630) pelo Congresso, em torno de temas como desinformação e inteligência artificial. “É preocupante que o Brasil dê um passo atrás no momento em que parecia ter chegado em um texto que trazia ali um arcabouço que se fundamentava em boas práticas.”

Ações de políticos

O diretor do escritório da RSF para a América Latina explica que a principal tendência que o ranking mundial da liberdade de imprensa traz é que a maior queda de indicador “político”, dentre os cinco utilizados no levantamento.

“Há uma percepção de que os atores políticos dos estados, que seriam aqueles que deveriam ser os responsáveis por garantir as condições para um livre exercício de jornalismo, estão se tornando cada vez mais os causadores dessa fragilização do direito à liberdade de imprensa”. Ele aponta que existe essa queda generalizada em todas as regiões do mundo.

O caso da Argentina é um exemplo na América Latina desse cenário. O país vizinho caiu 26 posições e teve a maior queda de pontuação na região (10 pontos). Saiu da posição de número 40 e agora ocupa a 66ª. “Está associada à chegada ao poder do presidente Javier Milei. Ele alimenta a polarização e faz ataque a meios de comunicação específicos.” Uma dessas ações foi o encerramento das atividades da agência pública de notícias do país, a Télam.

Outro país que registrou queda acentuada foi o Peru, que caiu 48 posições nos últimos dois anos, também em face de crises políticas.

Os Estados Unidos, por exemplo, caíram dez posições, e chegaram ao 55º lugar. “Os EUA estão também num cenário de polarização, têm uma ala mais radical do Partido Republicano, que é favorável à prisão de jornalistas. É uma posição historicamente baixa”, comenta Artur Romeu.

Segundo ele, a situação fica mais tensionada em função de ser um ano com o maior número de eleições na história. “A metade da população mundial vai às urnas. Há uma intensificação de pressão sobre o jornalismo.”

Só 1%

Outro dado do relatório é que, no mundo, somente 1% da população está em países em que a situação é considerada boa para os jornalistas. Dos 180 países, somente oito estão nessa escala. Os três primeiros colocados são Noruega, Dinamarca e Suécia.

“No final do ranking, países asiáticos como China, Vietnã e Coreia do Norte dão lugar a três países que viram o seu indicador político despencar”, aponta o relatório.

Os últimos colocados são Afeganistão (que caiu 44 posições) por causa da repressão ao jornalismo desde o regresso ao poder dos talibãs, a Síria (menos oito posições) e Eritreia (última classificação geral). “Os dois últimos países se tornaram zonas sem lei para os meios de comunicação, com um número recorde de jornalistas detidos, desaparecidos ou reféns”, destaca o levantamento.

Luiz Claudio de Ferreira – Repórter da Agência Brasil
Compartilhe a postagem:

Postagens relacionadas

Reunião de Mauro Mendes busca manter deputados no União Brasil

Mauro Mendes pede reunião com bancada para evitar saída de deputados do União

O governador Mauro Mendes (União) pediu uma reunião com os quatro deputados estaduais do União Brasil. O objetivo é evitar mudanças partidárias antes de 4 de abril, data final da janela. Mendes tenta segurar os parlamentares devido à dificuldade em formar chapas proporcionais competitivas, visando manter as quatro cadeiras conquistadas em 2022. Negociações de Dilmar Dal Bosco com o PRD e Eduardo Botelho com o MDB avançaram.

Leia mais...
Direitos da pessoa idosa: Prefeitura de Cáceres realiza ação

Prefeitura de Cáceres realiza ação sobre direitos da pessoa idosa

A Prefeitura de Cáceres, através da Secretaria Municipal de Assistência Social, realizou em 17 de março uma ação alusiva ao Mês da Mulher. Com o tema ‘Conhecendo os Direitos da Pessoa Idosa’, a atividade reuniu integrantes do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) e dos grupos de idosos Jovens Ainda e Arco-Íris. O objetivo foi destacar a importância da pessoa idosa como agente de transformação social, valorizando suas experiências.

Leia mais...
Capacitação de turismo digital em Cáceres qualifica profissionais

Cáceres sedia capacitação de turismo digital para profissionais do setor

A Prefeitura de Cáceres, por meio da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura, sedia uma capacitação gratuita em produção de conteúdo digital. Com o tema ‘Transformando guias em embaixadores do destino’, a ação é promovida pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (SEDEC), em parceria com o SingTur. O curso, com apoio municipal, ocorre nos dias 10 e 11 de abril.

Leia mais...
Os novos ônibus escolares chegam a Cáceres para reforçar frota

Prefeitura de Cáceres recebe seis novos ônibus escolares do Governo do Estado

A prefeita Eliene Liberato Dias e o secretário municipal de Educação, Fransérgio Rojas Piovesan, celebraram a chegada de seis novos ônibus escolares em Cáceres. Os veículos reforçarão o transporte da rede municipal, substituindo parte da frota já desgastada. Com esta incorporação, a frota passa a ter 73 ônibus, atendendo mais de dois mil e duzentos alunos em 85 linhas que percorrem 12 mil quilômetros diariamente.

Leia mais...
Manutenção de estradas rurais em Cáceres avança em Barranqueira e Sapicuá

Prefeitura de Cáceres intensifica manutenção de estradas rurais nas comunidades Barranqueira e Sapicuá

A Prefeitura de Cáceres intensifica a manutenção e recuperação das estradas rurais, visando melhores condições de acesso e mobilidade. As equipes da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Logística (SMIL) concentram os serviços nas comunidades Barranqueira e Sapicuá. Ações de patrolamento e encascalhamento são realizadas nos pontos críticos. O secretário Luan Teixeira destaca a grande extensão da malha viária rural de Cáceres, com cerca de 6.

Leia mais...
Imposto de Renda 2026: Regras, prazos e restituições

Imposto de Renda 2026: Receita Federal divulga regras e prazos

A Receita Federal divulgou as regras do Imposto de Renda 2026, referente ao ano-base 2025. O prazo para a declaração inicia em 23 de março e vai até 29 de maio. As restituições serão pagas em quatro lotes, com os dois primeiros concentrando cerca de 80% dos pagamentos até o fim de junho. O programa para preenchimento estará disponível a partir de 20 de março. A declaração pré-preenchida será acessível desde o primeiro dia do prazo. Prioridades e documentos necessários também foram detalhados.

Leia mais...
Pagamento do Bolsa Família: Caixa libera valores para NIS final 2

Caixa paga Bolsa Família a beneficiários com NIS final 2

A Caixa Econômica Federal efetua nesta quinta-feira (19) o pagamento do Bolsa Família para beneficiários com Número de Inscrição Social (NIS) de final 2. O valor mínimo do benefício é R$ 600, com o valor médio subindo para R$ 683,75. O programa alcançará 18,73 milhões de famílias, com gasto de R$ 12,77 bilhões. Adicionais são pagos a mães de bebês, gestantes, nutrizes e crianças.

Leia mais...