Tarifas EUA Brasil continuam sendo um ponto de tensão na relação bilateral. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou hoje que o Brasil busca incessantemente um diálogo com os Estados Unidos para mitigar a imposição de uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras. No entanto, segundo o ministro, as negociações enfrentam obstáculos, pois os EUA insistem em uma solução que o governo brasileiro considera “constitucionalmente impossível”. Haddad expressou preocupação com a aparente “dificuldade de compreensão do que se passa no Brasil”.
Haddad enfatizou que o entrave reside na exigência dos Estados Unidos de que o Executivo brasileiro interfira em questões de outro poder, o Judiciário, o que seria inviável sob a Constituição Federal. “Hoje nós temos documentos oficiais demonstrando que a negociação só não ocorre porque os Estados Unidos está tentando impor ao Brasil uma solução constitucionalmente impossível, que é Executivo se imiscuir em assuntos de outro poder, que é o Poder Judiciário. Nós não temos uma situação constitucional que nos permita, política e juridicamente, atuar no caso. Então, gerou-se um impasse que é pedir o que não pode ser entregue”, explicou o ministro.
O ministro ressaltou que o volume de comércio entre Brasil e Estados Unidos já sofreu uma redução significativa em comparação com os anos 80, e a tendência é de declínio contínuo. “Nós tínhamos exportações da ordem de 25% com os Estados Unidos, hoje elas significam 12% e, pelo andar dos acontecimentos, eu acredito que o comércio bilateral, infelizmente, vai cair ainda mais”, lamentou Haddad.
O ministro fez essas declarações durante a abertura do evento FT Climate & Impact Summit Latin America e Brasil 2030: Uma Nação de Oportunidades, promovido pelo Times Brasil/NBC em parceria com o Financial Times, em São Paulo.
Haddad também mencionou o cancelamento de uma reunião agendada com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent. Ele atribuiu o cancelamento a interferências de “interlocutores da extrema-direita brasileira”. O ministro assegurou que o Ministério da Fazenda possui documentação que comprova as tratativas em andamento com o governo americano, e reiterou que o encontro anterior com Bessent, em maio, havia sido produtivo. “[Foi uma reunião] excelente. Agora, o que mudou de maio para julho, tem que ser perguntado para eles”, disse Haddad.
O ministro expressou surpresa com o cancelamento da reunião, especialmente porque, no mesmo horário programado para o encontro, Bessent foi visto conversando com um “concorrente” do governo brasileiro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro. Haddad criticou a atitude, afirmando que jamais desrespeitaria um homólogo de outro país dessa forma. “Eu nunca faria cometeria uma deslealdade dessa com um homólogo meu de outro país, por mais hostil que o outro país fosse. Se eu marquei um compromisso, eu cumpro”.
Plano de Contingência em Andamento
O governo brasileiro está trabalhando na regulamentação de um plano de contingência para mitigar os impactos do tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos. O plano, que prevê a disponibilização de R$ 30 bilhões em crédito, será implementado por meio de uma medida provisória denominada MP Brasil Soberano.
“A tarefa dessa semana é regulamentar o plano de contingência, fazer chegar na ponta os recursos liberados e proteger o Brasil dessa agressão externa”, afirmou Haddad. O ministro acredita que o plano de contingência está adequadamente dimensionado e que não será necessário ampliá-lo, a menos que o cenário econômico se deteriore.
O Futuro da Globalização Segundo Haddad
Fernando Haddad também abordou a postura dos Estados Unidos em relação à globalização. Para o ministro, as recentes ações do governo americano, incluindo a imposição de novas tarifas, indicam uma mudança de estratégia. Segundo ele, os Estados Unidos, que promoveram a globalização, a desregulamentação financeira e a descentralização das atividades produtivas, agora parecem querer reverter esse processo.
“Eles venderam para o mundo a globalização, com desregulamentação financeira, a descentralização das atividades produtivas, o ganho de eficiência que isso ia gerar, a acumulação flexível. E aí, quando eles perceberam que eles ganharam muito, mas que a China ganhou ainda, aí [decidiram] ‘vamos melar o jogo’, ‘vamos mudar o jogo'”, explicou Haddad. O ministro argumenta que os Estados Unidos, embora tenham se beneficiado da globalização, enfrentam agora um “desafio inesperado” e buscam alterar as regras do jogo, impactando diretamente o cenário das Tarifas EUA Brasil e as relações comerciais internacionais.








