Os feminicídios em Mato Grosso revelam um padrão preocupante, conforme dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp-MT). Os registros indicam que mulheres são frequentemente assassinadas por companheiros ou ex-companheiros, em ambientes domésticos ou de convivência familiar. No Dia Internacional da Mulher, o g1 reuniu os casos de feminicídio registrados neste ano no estado para destacar as características comuns dessas mortes.
Até 2 de março deste ano, Mato Grosso contabilizou quatro feminicídios, de acordo com levantamento da Sesp-MT. As vítimas tinham idades entre 29 e 51 anos. Em todos os casos, os suspeitos eram homens que mantinham algum tipo de relação próxima com as vítimas, como marido, ex-marido ou companheiro.
Histórico dos Feminicídios em Mato Grosso
O cenário atual acompanha um histórico de violência contra mulheres no estado. Em 2025, Mato Grosso registrou 53 feminicídios, um número 13% maior do que os 47 casos contabilizados em 2024. No ano passado, 95 mulheres foram assassinadas no estado, somando homicídios dolosos e feminicídios. Segundo a Sesp, este número é 4% menor que os 99 registrados em 2024. Contudo, os feminicídios aumentaram de 47 para 53 casos no período, representando uma alta de 13%.
Características dos Feminicídios em 2026
Os quatro casos de feminicídio registrados neste ano apresentam características semelhantes. As vítimas eram mulheres adultas, com idades entre 29 e 51 anos. Os crimes foram cometidos por homens com vínculo afetivo ou familiar com as vítimas. A violência ocorreu dentro de casa ou em ambiente doméstico, e em alguns casos, havia um histórico de ameaças ou conflitos anteriores.
Casos de Feminicídio Detalhados
Entre os casos mais recentes está o assassinato de Luciene Naves Correia, de 51 anos. A professora foi morta a tiros em sua casa, no Bairro Osmar Cabral, em Cuiabá, pelo ex-marido Paulo Neves Bispo, de 61 anos. A vítima possuía uma medida protetiva ativa contra o agressor. A Polícia Militar informou que Paulo invadiu a casa enquanto Luciene tomava café da manhã e, após disparar contra ela, tentou atacar a filha do casal. A filha conseguiu se trancar em um quarto e escapar. Durante a fuga, Paulo foi perseguido por moradores até o Bairro Jardim Liberdade, onde um policial militar de folga atirou contra ele, resultando na morte de Paulo no local. A tenente coronel Thayse Assunção relatou que o homem seguia em direção à casa de outra filha do casal com a intenção de matá-la. As filhas da professora afirmaram que o botão do pânico do aplicativo SOS Mulher MT foi acionado anteriormente, mas que não houve ação efetiva para evitar o crime.
Em Nova Maringá, Laila Carolina Souza da Conceição, de 29 anos, foi encontrada morta com marcas de golpes de faca em sua residência no dia 11 de janeiro. Vizinhos acionaram a polícia após ouvirem uma briga entre o casal. No local, agentes encontraram um dos filhos da vítima em desespero. O corpo de Laila foi localizado no chão da residência com diversas perfurações. A Justiça converteu a prisão do suspeito em preventiva. A Polícia Civil informou que o homem era cunhado da vítima e mantinha um relacionamento com ela após o irmão dele ser preso. O suspeito foi encontrado correndo com uma faca e manchas de sangue, sendo preso em flagrante e confessando o crime.
A esteticista Ana Paula Lima Carvalho, de 48 anos, faleceu no Hospital Municipal de Cuiabá após 24 dias internada. Ela foi esfaqueada em Chapada dos Guimarães no dia 11 de janeiro, dentro de sua casa. O suspeito, um homem de 30 anos, ex-genro da vítima, teria invadido a residência e desferido diversos golpes antes de fugir, abandonando o veículo na rodovia MT-251.
Em Lucas do Rio Verde, Jaqueline de Araújo dos Santos, de 40 anos, morreu após ser esfaqueada enquanto pedia socorro à polícia. Uma equipe da Polícia Militar foi enviada, mas Jaqueline faleceu antes da chegada dos militares. O marido da vítima foi preso em flagrante, suspeito de feminicídio. Ele estava sentado ao lado do corpo quando os policiais chegaram e confessou o crime. Relatou que mantinha relacionamento com Jaqueline há cerca de três anos, tendo retornado a morar juntos há cinco dias. O homem contou que estava bebendo com a vítima e que, durante a madrugada, desferiu os golpes durante uma discussão. A própria vítima acionou a polícia relatando agressão, mas não sobreviveu.
Como Pedir Ajuda: SOS Mulher MT
O aplicativo ‘SOS Mulher MT’ é uma ferramenta para auxiliar vítimas de violência doméstica em Mato Grosso. Ele inclui um botão do pânico, que permite à vítima solicitar socorro caso o agressor descumpra uma medida protetiva. O Botão do Pânico virtual está disponível em Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres e Rondonópolis. Nos demais municípios do estado, a plataforma oferece outras funções, como direcionamento à medida protetiva online, telefones de emergência, endereços das Delegacias da Mulher, Plantão 24h, denúncias sobre violência doméstica e acesso à Delegacia Virtual para registro de ocorrências.
A Lei Maria da Penha e as Medidas Protetivas
A Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, visa criar mecanismos para prevenir e impedir a violência doméstica e familiar contra a mulher. A Lei define violência doméstica como qualquer ação baseada no gênero, ou seja, a mulher sofrer violência apenas por ser mulher. O Instituto Maria da Penha aponta cinco tipos de violência: física (ex: espancamentos), psicológica (ex: ameaça, humilhação), sexual (ex: estupro), patrimonial (ex: controle do dinheiro) e moral (ex: calúnia, difamação).
As medidas protetivas são ordens judiciais para proteger pessoas em situação de risco, perigo ou vulnerabilidade. Existem dois tipos: as voltadas para o agressor, impedindo sua aproximação da vítima; e as voltadas para a vítima, garantindo sua segurança e proteção de bens e família. Qualquer mulher em situação de violência doméstica e familiar pode solicitar uma medida protetiva, independentemente do tipo de ameaça, lesão ou omissão. A solicitação pode ser feita em delegacias, Ministérios Públicos ou na Defensoria Pública, sem necessidade de acompanhamento de advogado.








