Uma decisão da Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) agitou o cenário esportivo nacional nesta semana. O Santos Futebol Clube foi condenado a pagar a expressiva quantia de R$ 18.616.377,46 ao Cuiabá Esporte Clube. A sentença, proferida após um longo processo, refere-se a pendências financeiras envolvendo a negociação do zagueiro Joaquim, que passou pelo Dourado antes de chegar ao Peixe.
A Origem da Dívida e a Quebra de Acordo
A controvérsia tem suas raízes na aquisição de Joaquim pelo Santos, em fevereiro de 2023, vindo do Cuiabá. Posteriormente, em julho de 2024, o defensor foi negociado com o Tigres, do México, e o clube mato-grossense tinha direito a uma participação na revenda. Para facilitar o acerto dos valores devidos, o Cuiabá renegociou a dívida, abrindo mão de uma parte considerável do montante original. O novo acordo previa o pagamento em cinco parcelas, com a última vencendo em janeiro de 2025. Contudo, segundo o Cuiabá, o Santos quitou apenas a primeira parcela, deixando as demais em aberto.
Diante do não cumprimento do acordo, o Cuiabá acionou a CNRD em maio de 2025. Após dezesseis meses de trâmites e análises, a Câmara proferiu sua decisão, condenando o clube paulista ao pagamento integral da dívida, acrescida de correções. O Santos, por sua vez, ainda tem a possibilidade de recorrer da sentença junto ao Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA).
A Reação do Cuiabá e o Alerta para o Santos
Em nota oficial divulgada em suas redes sociais, o Cuiabá expressou respeito pela decisão da CNRD, mas deixou claro que a sentença, por si só, não resolve o problema. ‘Sentença não paga salário. O que o clube espera agora é o pagamento imediato’, afirmou o Dourado. O clube mato-grossense também manifestou preocupação com a possibilidade de o Santos utilizar recursos protelatórios para adiar o cumprimento da obrigação, que já se arrasta por quase dois anos. A nota do Cuiabá fez questão de recordar o histórico recente do Santos em casos semelhantes, citando as cobranças movidas pelo Arouca, de Portugal, e pelo Monaco, da França, perante a FIFA. Nesses episódios, o Peixe só efetuou os pagamentos após receber o temido ‘transfer ban’, mesmo já estando condenado havia meses e, inclusive, seguindo com novas contratações no período.
A Posição do Santos e o Cenário do Futebol Brasileiro
Em resposta à condenação e à nota do Cuiabá, o Santos também se manifestou por meio de seu site oficial. O clube paulista declarou que a questão ‘vem sendo tratada pelos meios próprios e nos fóruns institucionais competentes’ e que a ‘exposição pública do caso não contribui para a sua solução’. O Peixe reafirmou seu compromisso com o cumprimento de suas obrigações financeiras e a resolução das dívidas dentro dos limites de prazos e processos de planejamento, alinhado aos princípios de responsabilidade e equilíbrio que orientam o Fair Play Financeiro da CBF. O Santos também aproveitou para destacar que possui valores relevantes a receber de outros clubes brasileiros, totalizando aproximadamente R$ 170 milhões no início de 2026. Essa informação, segundo o clube, demonstra que o endividamento entre as agremiações é um desafio estrutural do ecossistema do futebol nacional, e não uma realidade exclusiva de uma única entidade.
Impacto Financeiro e o Desafio dos Clubes Devedores
O Cuiabá, em sua nota, não se limitou a abordar o caso Santos. O clube utilizou a oportunidade para expor um panorama mais amplo de suas dificuldades financeiras, atribuídas a dívidas de outros grandes clubes brasileiros. Entre os exemplos citados estão o Corinthians, que deve pela venda do volante Raniele (dívida incluída em um plano coletivo de 24 parcelas trimestrais até 2031, com a primeira parcela vencida em julho ainda em aberto); o Sport, com uma dívida de cerca de R$ 6 milhões pela venda do lateral Matheus Alexandre; e o Grêmio, que deve aproximadamente R$ 900 mil, aguardando julgamento para inclusão em plano de pagamento coletivo. Somados, os créditos do Cuiabá contra clubes brasileiros ultrapassam os R$ 40 milhões. O Dourado enfatiza que a ausência desses recursos compromete severamente seu caixa, especialmente na reta final do Campeonato Brasileiro. ‘Isso não é resultado de má gestão. É consequência de contratos que outros assinaram e não cumprem. Enquanto isso, clubes devedores seguem no mercado, contratando e ampliando folhas salariais. No futebol brasileiro de hoje, quem paga em dia financia quem não paga’, desabafou o Cuiabá, pedindo que os contratos sejam cumpridos e as decisões executadas com a mesma rapidez que a FIFA exige. A situação evidencia um problema crônico no futebol brasileiro, onde a inadimplência de alguns clubes afeta diretamente a saúde financeira de outros, como o Cuiabá.








