O Prêmio Nobel de Química foi concedido ao cientista francês Henri B. Kagan e ao japonês Kenso Soai por terem ajudado a explicar o mistério químico da assimetria da vida. Os pesquisadores descobriram como a natureza produz exclusivamente a versão correta de uma molécula, em vez de sua imagem espelhada. Os vencedores da premiação recebem a medalha do Prêmio Nobel e uma parte de 12 milhões de coroas suecas, valor correspondente a cerca de R$ 6,2 milhões.

O conceito de quiralidade e a assimetria na natureza
Na química orgânica, essa propriedade estrutural é denominada quiralidade. Moléculas quirais podem existir em versões consideradas ‘destras’ e ‘canhotas’, que funcionam como imagens espelhadas uma da outra, de modo comparável às mãos humanas, que não são idênticas, mas constituem o reflexo uma da outra. Moléculas de aminoácidos, que são os blocos de construção das proteínas, existem nessas duas formas espelhadas. Contudo, os organismos vivos na Terra operam apenas com uma delas.
Enquanto os processos naturais geram quase exclusivamente a variante requerida para o funcionamento orgânico, as reações químicas realizadas em laboratório produzem, habitualmente, uma mistura equilibrada de 50% de moléculas ‘destras’ e 50% de moléculas ‘canhotas’. Os laureados responderam à questão sobre o motivo pelo qual a vida favorece apenas uma dessas estruturas espelhadas em detrimento da outra.
Impactos na produção farmacêutica e o caso da talidomida
Essa diferenciação molecular é determinante na indústria farmacêutica, pois cada versão atua de forma distinta ao entrar em contato com o organismo humano. Enquanto uma configuração pode apresentar propriedades terapêuticas e combater enfermidades, a sua contraparte espelhada pode não apresentar efeito algum ou provocar danos severos à saúde.
Um caso documentado desse fenômeno envolveu o medicamento Talidomida. Durante a década de 1950, o composto era receitado para mulheres grávidas com o objetivo de aliviar enjoos matinais. Por ser uma molécula quiral, a estrutura ‘destra’ funcionava como tratamento eficaz, enquanto a versão ‘canhota’ revelou-se tóxica. O produto originalmente distribuído continha uma mistura de ambas as formas, constatando-se posteriormente que o organismo convertia uma na outra, o que levou milhares de crianças a desenvolverem deficiências graves.

Avanços científicos e o Prêmio Nobel de Química
Ao solucionar o enigma da quiralidade, Henri Kagan e Kenso Soai estabeleceram meios para projetar reações químicas capazes de gerar uma quantidade significativamente superior da versão desejada da molécula. Heiner Linke, presidente do Comitê Nobel de Química, ressaltou que os cientistas apresentaram uma solução para uma dúvida secular, demonstrando como a homoquiralidade — a criação seletiva da variante correta — pode se manifestar de maneira espontânea, classificando os processos criados como espetaculares.
Em 1986, Henri Kagan, atuando pela Universidade Paris-Sud, desenvolveu um método inédito para manipular reações químicas, obtendo um excesso de uma das imagens espelhadas superior ao que a ciência julgava viável até então. Posteriormente, em 1995, Kenso Soai, da Universidade de Ciências de Tóquio, publicou estudo na revista Nature reportando a primeira reação com potencial homoquiral para sintetizar unicamente a molécula orgânica pretendida. Em 2003, Soai obteve o controle total de um processo no qual apenas uma das duas formas espelhadas se originou. O Comitê Nobel salientou em comunicado que, além da própria vida, ninguém havia realizado essa proeza antes.
Em entrevista coletiva realizada por telefone durante o anúncio oficial, Kenso Soai declarou que aquele era um dos dias mais marcantes de sua trajetória e aproveitou a ocasião para manifestar apreço aos inúmeros pesquisadores de destaque que atuam nessa vertente de pesquisa.

Repercussão da descoberta no meio acadêmico
O professor Robert Mokaya, presidente da Royal Society of Chemistry do Reino Unido, apontou a descoberta como um testemunho sólido do papel da química fundamental em prover soluções para desafios expressivos da sociedade. Ele frisou que diferentes isômeros podem gerar efeitos físicos e biológicos totalmente divergentes, tornando o controle molecular indispensável na formulação de medicamentos para múltiplas patologias.
Dedicado ao estudo biológico do fenômeno na Universidade de Nottingham, o professor Angus Davison observou que a linha contemplada por o Prêmio Nobel de Química contribui para desvendar as razões pelas quais os seres vivos privilegiam a assimetria lateral. Davison pontuou que a estrutura quiral das unidades básicas da vida origina organismos que também exibem quiralidade, fundamentando aspectos anatômicos como o posicionamento do coração humano no lado esquerdo do corpo e a espiral das conchas de caracóis orientada para o lado direito.
Integrando o Comitê Nobel de Química, Peter Somfai avaliou que as investigações reconhecidas integram a compreensão basilar sobre a operação da química. Conforme detalhou Somfai, compreender a gênese de uma imagem espelhada toca no ponto mais basilar da existência, visto que essa dinâmica emergiu há quatro bilhões de anos no surgimento da vida e agora foi reproduzida em ambiente laboratorial pela primeira vez, coroando o impacto que o Prêmio Nobel de Química atribui ao avanço do conhecimento científico.








