MENU
2 de novembro de 2026

Entre o vaqueiro e o cavalo: amizade, cavalgada e identidade cultural em Cáceres

A cavalgada em Cáceres, integrada à Queima do Alho, reuniu 350 cavaleiros, reafirmando a forte ligação da cidade com a pecuária e a cultura das antigas comitivas. O evento destaca a profunda amizade entre vaqueiro e cavalo, essencial na lida pantaneira, e a importância da transmissão cultural aos jovens.
A cavalgada em Cáceres: tradição, amizade e identidade cultural
Reprodução - IA

Por Dra. Fernanda Machado

No domingo, 13 de setembro, Cáceres voltou a demonstrar a força de uma de suas mais bonitas tradições. A cavalgada promovida pelo Sindicato Rural de Cáceres, integrada às celebrações da tradicional Queima do Alho, reuniu aproximadamente 350 cavaleiros e 18 bois, além de famílias e diversas pessoas que acompanharam o percurso em veículos.

Foi uma manifestação expressiva, alegre e cheia de significado. A presença dos bois, dos cavalos, das comitivas e das famílias ajudou a recriar elementos da antiga vida pecuária e da condução das boiadas. Mais do que anunciar e preparar a cidade para a Exposição Agropecuária, a cavalgada reafirmou a ligação histórica de Cáceres com a pecuária, com o cavalo e com a cultura das antigas comitivas.

Todos os anos, por ocasião da exposição, a realização da cavalgada e da Queima do Alho renova uma tradição que aproxima o campo e a cidade. O grande número de participantes mostra que essa cultura permanece viva e mobiliza diferentes gerações.

Mas quem observa um vaqueiro e seu cavalo durante a lida pode imaginar que tudo é comandado apenas pelas rédeas. Na realidade, existe entre eles uma comunicação muito mais profunda. Um movimento do corpo, uma mudança de voz ou um toque quase imperceptível pode ser suficiente para indicar o caminho.

Essa compreensão é construída com o tempo.

O vaqueiro conhece a passada, a resistência, o temperamento e os receios de seu cavalo. Percebe quando ele está cansado, inseguro ou atento a algum perigo. O cavalo, por sua vez, reconhece a voz, o peso, os gestos e até o estado emocional de quem o conduz.

Por isso, essa relação não pode ser explicada apenas pelo trabalho. Existe confiança, respeito e afeto.

Na memória dos trabalhadores pantaneiros, os cavalos são frequentemente lembrados pelo nome. Fala-se daquele que atravessava qualquer vazante, daquele que percebia o terreno perigoso ou daquele que acompanhou o mesmo vaqueiro durante muitos anos.

Em uma região de longas distâncias e caminhos modificados pelas águas, confiar no cavalo também significava entregar a ele parte da própria segurança.

Essa amizade ajuda a compreender a força das cavalgadas na cultura de Cáceres. Atualmente vistas como celebrações, elas preservam a memória de um tempo em que viajar a cavalo era uma necessidade.

As antigas comitivas percorriam grandes trajetos conduzindo rebanhos. Cada peão tinha uma responsabilidade. Havia quem seguisse à frente, quem acompanhasse as laterais e quem permanecesse na culatra, evitando a dispersão do gado. O berrante ajudava na comunicação e os animais de troca garantiam a continuidade da viagem.

Com a abertura das estradas e a utilização dos caminhões, as comitivas perderam parte de sua função original. Entretanto, seus símbolos não desapareceram. Eles foram incorporados às cavalgadas, às exposições agropecuárias, às festas religiosas e aos encontros comunitários.

Um encontro necessário para os jovens

Um dos aspectos mais importantes da cavalgada realizada em Cáceres foi a presença dos jovens. São eles que poderão garantir a continuidade dessa cultura.

A cavalgada cria um espaço de convivência no qual os jovens se encontram, fortalecem amizades e compartilham uma experiência relacionada à história de suas famílias e de seu território. Muitos aprenderam a montar com os pais, avós ou trabalhadores das fazendas e carregam lembranças afetivas relacionadas aos cavalos.

Durante o percurso, os mais jovens observam a forma de montar, os cuidados com os animais, a organização da comitiva, os equipamentos e as manifestações de respeito entre os participantes.

A transmissão cultural não acontece somente por meio de livros ou discursos. Ela também ocorre quando um jovem participa de uma cavalgada, escuta os causos dos mais antigos, aprende o significado do berrante e compreende por que o cavalo ocupa um lugar tão importante na formação do Pantanal.

Não se trata apenas de repetir uma tradição. Trata-se de conhecer suas origens para que ela possa ser valorizada, aperfeiçoada e transmitida com responsabilidade.

A Queima do Alho e a memória das comitivas

Entre as manifestações associadas às cavalgadas e à Exposição Agropecuária de Cáceres está a Queima do Alho. Sua origem está na cozinha das antigas comitivas.

Durante as longas viagens, era necessário preparar alimentos fortes, rápidos e possíveis de conservar. O cozinheiro transportava seus utensílios e mantimentos em bruacas e preparava a refeição no fogo de chão. O alho dourado na gordura produzia o aroma que anunciava a comida e ajudou a dar nome à tradição.

Arroz carreteiro, feijão gordo, carne-seca, paçoca de carne, churrasco, mandioca e café compõem algumas versões dessa culinária.

Mais do que um cardápio, a Queima do Alho recria o ambiente das antigas comitivas: o fogo, os utensílios, a conversa, o berrante, o trabalho coletivo e o companheirismo.

Em Cáceres, essa tradição dialoga com os sabores próprios do Pantanal e valoriza nossa história pecuária. Também movimenta cozinheiros, produtores rurais, artesãos, músicos, comerciantes e outros trabalhadores envolvidos na realização da festa.

A união entre cavalgada, Queima do Alho e Exposição Agropecuária transforma o evento em uma experiência cultural completa. Não é somente o início de uma programação festiva. É a reafirmação pública de uma identidade.

Cultura, responsabilidade e continuidade

A participação de cerca de 350 cavaleiros, acompanhados por famílias e veículos, demonstra a dimensão alcançada pela cavalgada. Também aumenta a responsabilidade dos organizadores e participantes.

Preservar a cultura significa cuidar da segurança das pessoas, do meio ambiente e, principalmente, do bem-estar dos cavalos. Água, alimentação, descanso, equipamentos adequados e trajetos compatíveis com os limites dos animais devem estar sempre no centro da organização.

Quando existe esse cuidado, a cavalgada consegue reunir tradição e responsabilidade. Ela fortalece o pertencimento, favorece a educação patrimonial, estimula o turismo cultural e permite que diferentes gerações compartilhem conhecimentos.

A cavalgada realizada pelo Sindicato Rural de Cáceres mostrou que nossa tradição continua forte. A beleza do evento não esteve apenas na quantidade de participantes, nas comitivas ou nos cavalos. Esteve principalmente no encontro entre pessoas que reconhecem nessa manifestação uma parte de sua própria história.

Quando um vaqueiro cavalga pelo Pantanal, ele não segue sozinho. Com ele caminham as lembranças de sua família, a história da pecuária e a confiança construída com seu companheiro.

A amizade entre o vaqueiro e o cavalo nasce no trabalho, fortalece-se nas dificuldades e transforma-se em amor ao longo da caminhada. É esse sentimento que mantém a cavalgada viva e faz dela uma expressão legítima da identidade cultural de Cáceres.

Dra. Fernanda de Arruda Machado

Cáceres No Ar

Compartilhe a postagem:

Postagens relacionadas

Animação As Aventuras de Tita chega à programação infantil

Animação As Aventuras de Tita estreia na programação infantil da TV Brasil

A animação nacional As Aventuras de Tita estreia na TV Brasil a partir desta segunda-feira (2), integrando a faixa infantil TV Brasil Animada, que vai ao ar às 7h. A série, com temática ambiental, apresenta dez episódios de sete minutos. A produção acompanha Tita, uma menina com poder de falar com animais e se transformar em ararinha-azul, defendendo a natureza e a cultura local com seus amigos.

Leia mais...
Chuvas em novembro: Inmet alerta para tempestades no Brasil

Inmet alerta para chuvas e tempestades em diversas regiões do Brasil no início de novembro

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um aviso de perigo potencial para tempestades em diversas regiões do Brasil no início de novembro. Amazonas, Rondônia, Centro-Oeste e Sudeste são as áreas mais afetadas, com previsão de chuvas intensas. No Norte, Acre, Roraima, Pará e Tocantins também podem registrar precipitações. A Região Sul terá chuvas com trovoadas e possibilidade de granizo.

Leia mais...
Atividade humana na Amazônia impulsiona emissões de carbono

Estudo revela impacto da atividade humana nas emissões de carbono na Amazônia

Um estudo de 15 anos, liderado por Luciana Gatti do Inpe, revelou que as emissões de dióxido de carbono e monóxido de carbono na Amazônia são predominantemente causadas por atividades humanas, como desmatamento e queimadas. A pesquisa analisou dados de 2010 a 2024, classificando-os em grupos conforme condições climáticas e intensidade das ações humanas. Os resultados indicam que anos com maior atividade humana registraram as maiores emissões.

Leia mais...
plugins premium WordPress