MENU
22 de março de 2026

Brasil não trata meio ambiente com seriedade, diz promotor

O promotor Alexandre Gaio critica a falta de seriedade do Brasil com a proteção do meio ambiente. Ele destaca os desafios do país, como desmatamento, crime organizado e falta de proteção para ativistas e comunidades tradicionais. O Congresso Brasileiro do Ministério Público de Meio Ambiente busca soluções para esses problemas.
Fonte: Leonardo Milano/ICMBio

A Associação de Membros do Ministério Público do Meio Ambiente (Abrampa) promove, entre os dias 24 e 26 de abril, em Belém, no Pará, a 22ª edição do Congresso Brasileiro do Ministério Público de Meio Ambiente. O tema é “Amazônia e Mudanças Climáticas: uma atuação socioambiental estratégica e integrada”. Mais de 30 especialistas vão discutir os desafios e as soluções para lidar com os impactos das mudanças climáticas.

Brasília 20/04/2024 Promotor, Alexandre Gaio, que falou sobre os  principais problemas relacionados à preservação do meio ambiente. Foto Arquivo Pessoal
Fonte: Foto arquivo pessoal

Promotor Alexandre Gaio defende ações efetivas de defesa do meio ambiente e da Amazônia. 

A Agência Brasil entrevistou o presidente da Abrampa, Alexandre Gaio. Ele falou sobre os principais problemas relacionados à preservação do meio ambiente, em especial, os que envolvem a atuação dos Ministérios Públicos estaduais e federal. O promotor destacou a falta de seriedade com que o país ainda lida com questões ambientais, o crescimento do crime organizado, a falta de proteção com ativistas e comunidades tradicionais, assim como os riscos de que os desmatamentos em curso nos principais biomas do Brasil se tornem irreversíveis.

Agência Brasil: O Congresso Brasileiro do Ministério Público de Meio Ambiente vai reunir dezenas de especialistas para debates e palestras. Sendo um setor que demanda ações urgentes, como esse encontro pode resultar em medidas práticas e efetivas de proteção do meio ambiente no Brasil?
Alexandre Gaio: Os congressos da Abrampa tradicionalmente buscam palestrantes de várias instituições, que têm uma atuação prática nas temáticas discutidas. Não se trata apenas de trazer diagnósticos, mas também proposições do que precisa ser feito para o enfrentamento dos problemas levantados. Nossos convidados são escolhidos pela atuação destacada para que possam servir de exemplo e referência, e os conhecimentos serem replicados nas mais variadas regiões do Brasil.

Também temos participado, seja a partir dos procuradores ou das instituições de forma ativa de Conferências das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP). A Abrampa foi nas duas últimas e vai estar presente na próxima. É um processo contínuo de debate e discussão, de convencimento em relação a prioridades e de enfrentamento às mudanças climáticas. Temos defendido nossos pontos de vista. É um espaço para discutir questões jurídicas e qual deve ser a política de Estado para enfrentar os problemas climáticos.

Agência Brasil: Hoje é possível dizer que o país enfrenta uma série de desafios ambientais. Um, que parece ter cada vez mais ramificações nacionais, é a criminalidade ambiental organizada. Como lidar com essas redes ilícitas complexas?
Alexandre Gaio: Esse tema precisa de muita atenção não só dos Ministérios Públicos, mas das demais instituições públicas do Poder Judiciário e da própria sociedade. A gente sabe que há crimes ambientais em todo o Brasil. E eles são constantes, ocorrem rotineiramente, merecem uma atenção destacada dos órgãos do sistema judiciário. Envolvem grupos especializados, associados com outros ilícitos. Atuam no desmatamento, na dinâmica ilegal do comércio da madeira, entre outras coisas. Há organizações que tratam do desmatamento ligado à grilagem de terras públicas. Outras que são especializadas no tráfico de animais silvestres. Essas situações merecem atuação também especializada dos órgãos de fiscalização, dos Ministérios públicos e do Poder Judiciário. Caso contrário, não teremos uma resposta proporcional a esse tipo de crime, que envolve complexidades, necessita de aprofundamento de investigações e técnicas diferenciadas. Primeiro, precisamos de disposição dos Ministérios Públicos, dos órgãos de Segurança Pública e dos órgãos de fiscalização, especialmente de fiscalização ambiental. E todos esses órgãos devem dispor de recursos humanos, de planejamento, de capacitação e de uma atuação articulada e integrada entre eles. Há uma série de elementos necessários para que esse enfrentamento ocorra de modo efetivo. Dentre esses elementos a gente pode citar a implementação de grupos de atuação especializada na defesa de Meio Ambiente. A gente tem buscado estimular, junto com o Conselho Nacional do Ministério Público, os Ministérios Públicos estaduais a formarem esses grupos. Que tenham equipes técnicas com uso de tecnologia, com integração com os órgãos de segurança pública e com órgãos de fiscalização ambiental. Isso tudo vai permitir uma atuação minimamente à altura das organizações que trabalham na criminalidade ambiental.

Agência Brasil: O país é conhecido negativamente pelo número alto de perseguições e assassinatos de ativistas. No que estamos falhando e como melhorar a proteção de lideranças e de instituições que atuam em defesa do meio ambiente?
Alexandre Gaio: Primeiro, precisamos de recepção e tratamento mais adequados para esses casos de agressões, ameaças e violências contra ativistas, lideranças de organizações ambientais, de povos indígenas e populações tradicionais. Um protocolo ou uma prioridade de atuação em relação a esses casos, porque são atores importantes, que muitas vezes são desestimulados a continuar a luta por causa dessas violências. E quando não há respostas efetivas rápidas a crimes praticados contra os ativistas fica uma sensação de impunidade e de que não haverá resposta estatal à altura. Em segundo lugar, existe a questão do discurso, de como se maneja o discurso ambientalista pela mídia, poder público, sociedade civil. Há ainda um menosprezo em relação aos argumentos ambientais. A pauta ambiental não é tratada com a seriedade que deveria ser tratada, a ponto de se conscientizar e se convencer a sociedade brasileira de que crimes ambientais são fatos de gravidade. Que eles afetam toda a comunidade, a qualidade de vida geral e a própria possibilidade de as gerações futuras usufruírem de um meio minimamente equilibrado.

Agência Brasil: Em relação às questões sociais, ainda estamos muito aquém do que deveríamos na proteção de comunidades tradicionais. Que inclusive são reconhecidas como protetoras do meio ambiente. O que pode ser feito nesse sentido?
Alexandre Gaio: As populações tradicionais são fundamentais para o combate ao desmatamento, à grilagem e às queimadas. São fundamentais para a defesa da biodiversidade. E têm sido vítimas de pressão de grileiros e de proprietários de terras, que querem expandir suas fronteiras agrícolas. E muitas vezes há violações de direitos dessas populações. É preciso ouvir a voz delas e entender suas dinâmicas. O Estado deve proteger e auxiliar os que trazem essas demandas. Atuar fortemente na resposta a essas violações de direitos, garantir a consulta prévia e livre às informações de qualquer atividade, obra ou empreendimento que possa afetar diretos ou modos de vida tradicionais desses povos. Há uma série de medidas, iniciativas e atuações indispensáveis para a defesa dessas comunidades e desses povos. Também vale destacar as discussões que faremos sobre o tema das desigualdades socioambientais. A questão do racismo ambiental, como as decisões de governança, decisões de políticas públicas, são diferentes quando é para atender, por exemplo, grandes empreendimentos e quando é para atender populações socialmente vulneráveis. E como essas populações são atingidas com muito mais frequência do que aquelas mais favorecidas do ponto de vista econômico.

Agência Brasil: Recentemente, o chefe do clima da Organização das Nações Unidas disse, enfaticamente, que a humanidade tem dois anos para tentar salvar o planeta. Uma frase forte, que alerta para a gravidade da proteção ao meio ambiente. Como estamos contribuindo no Brasil para salvar o planeta? Estamos avançando bem ou construindo um futuro sombrio?
Alexandre Gaio: Os desafios são atuais e constantes. O Brasil tem demonstrado esforços, desde o ano passado até abril desse ano, para a redução do desmatamento da Amazônia. É necessário reconhecer esse esforço, especialmente dos órgãos de fiscalização, dos integrantes do Ministério do Meio Ambiente no governo federal. E também a participação de alguns estados e municípios. É um avanço importante, mas há muito a ser feito. A situação é muito delicada, muito preocupante. Primeiro, porque o índice de grilagem de terras públicas na Amazônia ainda é muito alto. Houve redução do desmatamento, mas ele continua acontecendo. Em outros biomas, o desmatamento continua com índices bem elevados, exemplo do cerrado. E a gente continua com muitas dificuldades de estabelecer atuações integradas, planejadas, articuladas e constantes nesse combate ao desmatamento. Ele é a principal causa de emissão de gases do efeito estufa, considerando a alteração no uso do solo. Essa deve ser uma prioridade absoluta: que todas as instituições atuem no combate ao desmatamento ilegal. Há uma série de iniciativas que ainda precisam ser concatenadas com a fiscalização do desmatamento. Por exemplo, a interrupção dos financiamentos feitos por instituições financeiras. A capacidade de rastrear os produtos, algo que não funciona de modo adequado. A cadeia econômica do gado, da madeira.

Além da questão do desmatamento, estamos a passos muito lentos em relação à questão climática. Quando se fala em geração de energia, por exemplo, a transição energética é muito lenta. A matriz de impactos climáticos não é observada nos grandes licenciamentos ambientais. A Abrampa tem um trabalho sobre isso, produziu uma matriz de impactos climáticos e disponibilizou para todos os estados e todos os Ministérios Públicos para fazer o convencimento dos órgãos ambientais. Para que os MPs estaduais convençam os órgãos ambientais de que é necessário se observar condicionantes e pressupostos relacionados às mudanças climáticas nos grandes licenciamentos.

Os desafios são muito grandes. E não tem nada para ser comemorado. Pelo contrário. Há grandes porções territoriais da Amazônia que já não conseguem resgatar mais as suas funções ecológicas. Ou seja, entraram em um processo de irreversibilidade, que já afeta o regime hídrico não só da Amazônia, mas de outras regiões brasileiras. O cerrado, então, que abrange e dá origem a maior parte das bacias hidrográficas brasileiras, tem índices de desmatamento galopantes, que precisam de uma resposta imediata. Isso, sob pena também de irreversibilidade. O cenário não é positivo e a gente precisa ter uma atuação mais efetiva do poder público e da sociedade para freá-lo. Precisamos cumprir as metas que nos obrigamos a cumprir internacionalmente pelo Acordo de Paris. Estamos muito longe de conseguir isso.

Rafael Cardoso – Repórter da Agência Brasil
Compartilhe a postagem:

Postagens relacionadas

Reunião de Mauro Mendes busca manter deputados no União Brasil

Mauro Mendes pede reunião com bancada para evitar saída de deputados do União

O governador Mauro Mendes (União) pediu uma reunião com os quatro deputados estaduais do União Brasil. O objetivo é evitar mudanças partidárias antes de 4 de abril, data final da janela. Mendes tenta segurar os parlamentares devido à dificuldade em formar chapas proporcionais competitivas, visando manter as quatro cadeiras conquistadas em 2022. Negociações de Dilmar Dal Bosco com o PRD e Eduardo Botelho com o MDB avançaram.

Leia mais...
Direitos da pessoa idosa: Prefeitura de Cáceres realiza ação

Prefeitura de Cáceres realiza ação sobre direitos da pessoa idosa

A Prefeitura de Cáceres, através da Secretaria Municipal de Assistência Social, realizou em 17 de março uma ação alusiva ao Mês da Mulher. Com o tema ‘Conhecendo os Direitos da Pessoa Idosa’, a atividade reuniu integrantes do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) e dos grupos de idosos Jovens Ainda e Arco-Íris. O objetivo foi destacar a importância da pessoa idosa como agente de transformação social, valorizando suas experiências.

Leia mais...
Capacitação de turismo digital em Cáceres qualifica profissionais

Cáceres sedia capacitação de turismo digital para profissionais do setor

A Prefeitura de Cáceres, por meio da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura, sedia uma capacitação gratuita em produção de conteúdo digital. Com o tema ‘Transformando guias em embaixadores do destino’, a ação é promovida pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (SEDEC), em parceria com o SingTur. O curso, com apoio municipal, ocorre nos dias 10 e 11 de abril.

Leia mais...
Os novos ônibus escolares chegam a Cáceres para reforçar frota

Prefeitura de Cáceres recebe seis novos ônibus escolares do Governo do Estado

A prefeita Eliene Liberato Dias e o secretário municipal de Educação, Fransérgio Rojas Piovesan, celebraram a chegada de seis novos ônibus escolares em Cáceres. Os veículos reforçarão o transporte da rede municipal, substituindo parte da frota já desgastada. Com esta incorporação, a frota passa a ter 73 ônibus, atendendo mais de dois mil e duzentos alunos em 85 linhas que percorrem 12 mil quilômetros diariamente.

Leia mais...
Manutenção de estradas rurais em Cáceres avança em Barranqueira e Sapicuá

Prefeitura de Cáceres intensifica manutenção de estradas rurais nas comunidades Barranqueira e Sapicuá

A Prefeitura de Cáceres intensifica a manutenção e recuperação das estradas rurais, visando melhores condições de acesso e mobilidade. As equipes da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Logística (SMIL) concentram os serviços nas comunidades Barranqueira e Sapicuá. Ações de patrolamento e encascalhamento são realizadas nos pontos críticos. O secretário Luan Teixeira destaca a grande extensão da malha viária rural de Cáceres, com cerca de 6.

Leia mais...
Imposto de Renda 2026: Regras, prazos e restituições

Imposto de Renda 2026: Receita Federal divulga regras e prazos

A Receita Federal divulgou as regras do Imposto de Renda 2026, referente ao ano-base 2025. O prazo para a declaração inicia em 23 de março e vai até 29 de maio. As restituições serão pagas em quatro lotes, com os dois primeiros concentrando cerca de 80% dos pagamentos até o fim de junho. O programa para preenchimento estará disponível a partir de 20 de março. A declaração pré-preenchida será acessível desde o primeiro dia do prazo. Prioridades e documentos necessários também foram detalhados.

Leia mais...
Pagamento do Bolsa Família: Caixa libera valores para NIS final 2

Caixa paga Bolsa Família a beneficiários com NIS final 2

A Caixa Econômica Federal efetua nesta quinta-feira (19) o pagamento do Bolsa Família para beneficiários com Número de Inscrição Social (NIS) de final 2. O valor mínimo do benefício é R$ 600, com o valor médio subindo para R$ 683,75. O programa alcançará 18,73 milhões de famílias, com gasto de R$ 12,77 bilhões. Adicionais são pagos a mães de bebês, gestantes, nutrizes e crianças.

Leia mais...