A morte da matriarca da família Oliveira, Maria Benedita Martins de Oliveira, em 12 de janeiro, aos 104 anos, reacendeu o interesse na figura de Dante de Oliveira, um dos políticos mais emblemáticos da história de Mato Grosso. Ex-prefeito de Cuiabá, ex-governador do Estado e autor da emenda constitucional que deu nome ao movimento das Diretas Já, Dante Martins de Oliveira deixou um legado que transcende obras e mandatos, completando 20 anos de sua morte em julho de 2026.
Dante de Oliveira: Disciplina e Visão de Futuro
Para Thelma de Oliveira, viúva de Dante, ex-deputada federal e ex-prefeita de Chapada dos Guimarães, ele era um homem disciplinado, afetuoso e movido por propósitos. Thelma relembrou em entrevista ao MidiaNews que foram 27 anos de casamento e um ano de namoro, totalizando 28 anos juntos. Ela descreveu Dante como ‘extremamente disciplinado, tinha objetivos diários muito definidos, desde caminhada, alimentação, tudo’. Ao mesmo tempo, ele era ‘extremamente carinhoso, gostava muito de crianças, de idosos, sempre tinha uma disponibilidade natural para as pessoas’.
Thelma o descreveu como atento às relações familiares e humanas, mantendo rituais como tomar café da manhã diariamente com a mãe, dona Maria. Segundo Thelma, Dante também era um gestor exigente. Ela afirmou: ‘Dante era um estadista, estava sempre mirando o futuro. Exigia metas dos secretários, cumprimento de projetos, mas não gostava de ficar preso só ao dia a dia. Gostava de pensar sempre no futuro’. O jornalista e analista político Onofre Ribeiro, conselheiro informal de Dante, destacou sua vocação natural para a liderança, afirmando que ‘o Dante tinha vocação de grande líder’. Onofre conviveu com o lado menos formal do governador, ouvindo suas angústias e reflexões, e ressaltou a influência da mãe, dona Maria, que tinha ‘uma leitura profunda do que acontecia’.
A Emenda das Diretas Já e o Destaque Nacional
A combinação entre sensibilidade social e visão estratégica marcou a trajetória política de Dante desde o início. Thelma relatou que foi ouvindo as pessoas nas ruas que Dante amadureceu a ideia das eleições diretas para presidente, em pleno regime militar. Ela contou: ‘O Dante ia muito para a rua, discutia com a população e ouvia muito. As pessoas diziam: ‘Não é possível que a gente não possa eleger o nosso presidente, estamos na ditadura’. Foi o que o levou a apresentar a emenda das Diretas Já’.
Embora houvesse outros projetos sobre o tema no Congresso, Dante seguiu um conselho do pai, Sebastião de Oliveira, conhecido como doutor Paraná, jurista e político experiente. O pai orientou Dante a fazer uma proposta simples, que as pessoas pudessem compreender e abraçar, pois os outros projetos eram ‘complexos demais’. A emenda Dante de Oliveira não foi aprovada, mas desencadeou a maior mobilização popular da história recente do país para o fim da ditadura. Thelma lembrou que o movimento das Diretas Já ganhou dimensão nacional de forma espontânea, começando com estudantes e se estendendo a sindicatos, partidos, classes sociais e à imprensa. Jovem deputado federal, Dante rapidamente se tornou um símbolo da redemocratização.
Legado Político em Cuiabá e no Estado
A vocação política de Dante vinha de família, com seu pai sendo deputado-constituinte. Inicialmente, ele planejava ser engenheiro no Rio de Janeiro e retornar a Cuiabá como profissional liberal, mas o envolvimento com o movimento estudantil contra a ditadura mudou seu caminho. Thelma afirmou: ‘Ele se apaixonou pela política ali’. Este político de projeção nacional manteve uma identidade popular, com raízes na política pelo engajamento com o povo. Thelma descreveu que, apesar de ser de família tradicional, ele era carismático, ia às casas das pessoas, bares, comia salgado e tomava café, crescendo muito na periferia ao ouvir a população. Dessa escuta nasceu o projeto ‘Muda Cuiabá’, base de suas gestões como prefeito, com ênfase na participação popular e em áreas como Saúde, Educação e Infraestrutura.
Para Thelma, um dos maiores legados de Dante de Oliveira foi humano e institucional. Ele ‘dizia que era importante formar seres humanos. Investia muito em escolas, em capacitação dos servidores. Todos tinham oportunidade de aprender. Ele não tomava decisões isoladamente, ouvia, convencia, mas não impunha. E exigia que as pessoas se capacitassem, crescessem. Esse legado existe até hoje’. O deputado estadual Carlos Avallone (PSDB), ex-secretário municipal e estadual de Dante, reforçou essa visão, afirmando que Dante exercia uma liderança rara, ‘a partir de políticas públicas e posturas bem definidas’, sendo ‘transparente’ e com ‘relação muito próxima com o povo’.
Avallone lembrou que, como prefeito, Dante promoveu mudanças estruturantes em Cuiabá, como a Perimetral, soluções para resíduos sólidos e projetos financiados por organismos internacionais. Ele definiu a gestão de Dante no Governo do Estado como uma ruptura histórica, afirmando: ‘Ele fez a grande transformação, preparou o Estado para o futuro. Enxugou um Estado pesado e o transformou em moderno, sem perder as funções sociais’. Foram oito anos com projetos estruturantes, incluindo resolução do problema energético, implantação de linhões, avanço da ferrovia, gasoduto, consolidação de Manso e políticas sociais. Avallone relatou que essas mudanças tiveram custo político imediato, com a demissão de 16 mil servidores de um total de 44 mil, o que gerou vaias, mas a população ‘reconheceu e o reelegeu’. Avallone concluiu: ‘Dante foi o único estadista que conheci. Pensava Cuiabá e Mato Grosso como objetivo de vida’.
A Morte Precoce de Dante de Oliveira
A morte de Dante de Oliveira, aos 54 anos, em 2006, chocou todo o Estado. Onofre Ribeiro descreveu a morte como ‘uma sensação de orfandade’ na política mato-grossense, pois, mesmo após perder a eleição em 2002, ele ‘continuou sendo um grande líder’. A morte ‘interrompeu isso de forma abrupta’. O historiador Alfredo Menezes avaliou que Dante foi um político que entendeu seu tempo, sendo urbano e engenheiro, mas percebendo o crescimento do agronegócio e dando apoio com incentivos fiscais, criação do Fethab (Fundo Estadual de Transporte e Habitação) e políticas que fortaleceram o setor. Para Alfredo, a morte de Dante deixou um vazio na centro-esquerda estadual, impedindo a formação de um contraponto político mais equilibrado. Ele afirmou: ‘Poucas lideranças chegaram ao patamar do Dante. Outros tiveram peso estadual, mas ele teve o fator nacional das Diretas Já. Sem dúvida, esse movimento foi decisivo para empurrar o regime militar para a saída’.
Para Thelma, a perda segue viva, mesmo após duas décadas. A morte repentina, após um quadro de pneumonia que evoluiu de forma inesperada, chocou o Estado. Ela relembrou, emocionada: ‘Foi uma coisa inacreditável. Ele se cuidava muito. Foi tudo muito rápido e doloroso’. Thelma enfatizou o amor e o legado que permanecem na memória dos anos que passaram juntos, descrevendo as atividades que compartilhavam: ‘A gente fazia tudo juntos: caminhadas, bicicleta, cinema, viagens, pescarias. Andávamos sempre juntos. Foi uma dor muito grande’. Ela acrescentou: ‘A gente gostava de tudo que fazia junto. Esse crescimento pessoal e político era algo muito gostoso de compartilhar. Tínhamos muito carinho e muito amor’. Para Thelma e Alfredo, vinte anos após a morte, Dante de Oliveira permanece na memória coletiva como símbolo de um tempo em que a política se fazia com escuta, coragem e projeto de futuro. Thelma completou: ‘Um líder que ajudou a devolver o voto ao povo brasileiro e que pensou Mato Grosso para além do seu tempo’.








