O período de definição de candidaturas para as eleições deste ano, que antecede o início da campanha em 16 de agosto conforme a Justiça Eleitoral, foi marcado por uma série de eventos e conflitos. Puxadas de tapete, acordos com grupos antagônicos e até uma operação da Polícia Federal são apontados como elementos que devem impactar diretamente a condução da campanha eleitoral em Mato Grosso.
A seguir, são detalhados os principais conflitos observados na reta final da pré-campanha no estado, apresentados em ordem cronológica, que moldaram a definição de candidaturas.
Jayme Campos isolado no União Brasil
A primeira grande crise ocorreu durante a convenção do União Brasil. O senador Jayme Campos, figura histórica da legenda desde a época do PFL, viu sua candidatura ser submetida a um “plebiscito” interno para a definição de candidaturas. Os convencionais da sigla precisaram indicar se apoiariam Jayme ou se o partido aderiria ao projeto de reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos).
A abertura dos trabalhos foi marcada por uma cena considerada constrangedora, quando o deputado estadual Dilmar Dal Bosco (União) acusou Mauro Mendes (União) de trair o partido. “Nunca na história deste PFL, nunca na história vi o partido traindo o partido!”, declarou Dal Bosco, em um discurso acompanhado por vaias direcionadas a Mauro Mendes e Fábio Garcia.
Apesar do cenário e da plateia terem sido estrategicamente montados para enaltecer Jayme Campos, os votantes não foram impressionados. O placar final da votação resultou em 40 votos para apoiar Pivetta, 19 votos para apoiar Jayme e 1 voto de abstenção.
Após a definição do partido, Jayme Campos comentou a situação: “É aquela história, né, da traição. A traição é muito ruim”. Ele completou afirmando que “A sociedade, ela odeia os traidores, é bom que se esclareça”.
José Medeiros preterido na chapa do PL
O deputado federal José Medeiros (PL) tinha a convicção de que seria o único candidato a senador na chapa de Wellington Fagundes, o nome do PL para o governo do Estado. Esse acordo havia sido reafirmado em reuniões internas e também na convenção do partido, onde se esperava que a composição do grupo fosse selada. Contudo, uma reviravolta inesperada ocorreu no processo de definição de candidaturas.
No dia 2 de agosto, um domingo, o senador Wellington Fagundes e a deputada estadual Janaina Riva, que é presidente estadual do MDB e candidata ao Senado, firmaram um acordo com o presidente nacional do Partido Liberal, Valdemar da Costa Neto. O objetivo era que Janaina Riva passasse a compor a chapa majoritária no estado.
Essa aliança foi interpretada pelos bolsonaristas do grupo como uma traição a Medeiros e à ideologia deles, provocando um racha na legenda. Medeiros e o prefeito Abilio Brunini (PL), acompanhados de Odílio Balbinotti, empresário e suplente de Medeiros, chegaram a viajar até Brasília para dialogar com Valdemar e com Flávio Bolsonaro (PL), candidato a presidente. No entanto, a situação não foi resolvida.
Houve, contudo, um acordo estabelecendo que ninguém seria obrigado a pedir votos para Wellington, desde que não falassem mal dele e nem aderissem a outra candidatura. A aproximação entre PL e MDB gerou revolta entre prefeitos de algumas das principais cidades administradas pelo PL no estado, onde o MDB representa a principal força de oposição. Alguns prefeitos rebeldes chegaram a aparecer no palanque da convenção de Pivetta.
Operação Heritage da PF mira Mauro Mendes
Na quinta-feira, dia 6, o ex-governador Mauro Mendes, membros de sua família e aliados políticos foram alvos da Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal. A operação visava apurar a atuação de uma suposta organização criminosa que teria desviado R$ 308 milhões dos cofres do estado para fundos que seriam ligados a Mendes e ao deputado federal Fábio Garcia (União).
A operação teve um total de 31 alvos. A lista de pessoas que receberam a visita dos policiais inclui a ex-primeira-dama Virginia Mendes e o filho dela com Mauro, Luis Antônio Taveira Mendes. Também foram alvos a procuradora Fabíola Paulino Garcia Pereira Cardoso e Laura Paulino Garcia, irmã e mãe de Fábio Garcia, além de Ulisses Rabaneda dos Santos, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
De acordo com a Polícia Federal, os crimes investigados incluem crimes contra o sistema financeiro nacional, peculato, lavagem de dinheiro e insider trading, que consiste no uso de informações privilegiadas para obter lucro no mercado de investimentos. A materialização da conduta criminosa, segundo os investigadores, seria a destinação dos recursos do pagamento daquele valor à empresa de telefonia Oi.
Esses recursos, conforme a PF, passavam por diversos fundos de investimento, utilizados para mascarar as transações ilícitas. O destino final dos recursos eram dois fundos de investimentos ligados a agentes políticos. O primeiro, o Royal Capital FIDC, seria vinculado à família de Mauro Mendes, conforme a PF. O segundo fundo, denominado Lotte Word FIDC, seria ligado a Fábio Garcia e a Mauro Carvalho, aliados próximos de Mendes.
Marcelo Maluf excluído da chapa de Wellington Fagundes
O Partido Novo quase aderiu ao projeto de Otaviano Pivetta (Republicanos) devido à insatisfação com a aproximação com o MDB. Contudo, após várias horas de discussão, a direção do partido decidiu continuar com Wellington Fagundes, com a promessa de que o empresário Marcelo Maluf (Novo) seria o vice do senador. A convenção, realizada na quarta-feira, dia 04, contou com a presença do presidente estadual do partido, Ananias Martins.
O acordo, no entanto, foi desfeito na sexta-feira, dia 7, quando o grupo anunciou que Wellington “dispensou” Maluf e escolheu Alencar Farina (PL) como seu nome para a vice-governadoria na chapa. Conforme apurado, o Novo só tomou conhecimento da decisão no momento de apresentar a ata da convenção à Justiça Eleitoral, impactando a definição de candidaturas.
Maluf, que poderia ter sido candidato ao governo pelo Novo, reagiu à exclusão. Ele declarou que Wellington deveria mostrar que “sua palavra tem valor” e “respeitar compromissos” se pretendia governar Mato Grosso.
Em declaração enviada à imprensa, o empresário afirmou: “Política se faz com responsabilidade, compromisso, seriedade e, sobretudo, palavra. Infelizmente, o senador Wellington Fagundes e o Partido Liberal de Mato Grosso demonstraram enorme dificuldade em compreender o significado desses princípios”.








