Por Dra. Fernanda Machado
De 9 a 11 de setembro de 2026, a pecuária brasileira estará reunida para uma nova etapa do projeto Vozes da Pecuária. O encontro reúne idealizadores, coordenadores, conselheiros, embaixadores territoriais e convidados com experiência em mercado, finanças, pesquisa econômica e representação dos produtores. O objetivo é examinar o que foi ouvido em diferentes regiões do país e decidir como comunicar a pecuária a partir de sua realidade territorial, de seus desafios e de sua contribuição ambiental, social, econômica e cultural.
Esse momento é resultado de uma construção iniciada antes do próprio Vozes da Pecuária.
Em 17 de agosto de 2024, a Liga do Araguaia comemorou dez anos de atuação durante seu 15º Dia de Campo, realizado na Fazenda Água Viva, em Cocalinho, Mato Grosso. A experiência da Liga, formada por pecuaristas comprometidos com produção e sustentabilidade, tornou-se uma das referências para a criação da Pecuária Tropical pelo Clima. Ali se fortaleceu a convicção de que o produtor precisava participar diretamente do debate climático e contar, com suas próprias palavras, o que acontece dentro das propriedades e dos territórios.
Em 2025, essa articulação alcançou o plano nacional. Em 24 de setembro, o primeiro evento Vozes da Pecuária foi realizado no Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura, em Brasília. Pecuaristas do Cerrado, do Pantanal e da Amazônia apresentaram relatos, uma Carta Aberta e um Chamado à Ação. O encontro levou ao centro político do país uma mensagem direta: a transição para sistemas cada vez mais sustentáveis precisa reconhecer quem produz, quem preserva, quem assume os custos das mudanças e quem conhece os limites e as possibilidades de cada região.
A Carta Aberta estabeleceu compromissos relacionados à produção de baixo carbono, ao enfrentamento do desmatamento ilegal, ao aumento da eficiência e da rastreabilidade, à inclusão social, à transparência e ao fortalecimento das economias locais. Ao mesmo tempo, os participantes apontaram entraves que não podem ser ignorados, como insegurança jurídica, infraestrutura insuficiente, necessidade de crédito adequado, acesso a tecnologia, assistência técnica e mecanismos capazes de remunerar serviços ambientais.
Em 2026, o movimento mudou de escala e de método. O lema desta etapa poderia ser resumido assim: o território fala e o Brasil escuta. O Vozes deixou de concentrar sua ação em um encontro nacional e passou a realizar uma escuta estruturada junto aos produtores. As primeiras informações públicas apresentaram uma atuação em sete territórios de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Pará. Com a ampliação informada pela coordenação do projeto, a mobilização chegou a dez territórios ou bolsões produtivos e passou a alcançar também novas frentes estaduais, entre elas Rondônia, São Paulo, Tocantins e Bahia.
Essa expansão é importante porque não existe uma pecuária brasileira uniforme. Há diferenças de clima, solo, regime de águas, infraestrutura, escala de produção, acesso ao crédito, mercado comprador, tradição familiar e relação com a biodiversidade. Uma exigência que parece simples quando formulada longe da fazenda pode ser inviável em um território remoto. Da mesma forma, uma solução bem-sucedida em determinada região pode precisar de adaptação técnica, econômica e cultural para funcionar em outra.
As rodas de conversa transformam essa diversidade em informação organizada. Primeiro, o projeto escuta produtores, lideranças e parceiros locais. Depois, identifica temas recorrentes, desafios específicos, oportunidades e propostas. Em seguida, essas contribuições são validadas e convertidas em agendas territoriais, pactos e caminhos de articulação com governos, empresas, instituições financeiras, pesquisadores, compradores e entidades representativas.
O encontro de 9 a 11 de setembro marca justamente a passagem da escuta para uma fase de análise e comunicação. Os participantes terão de preservar a autenticidade das falas e, ao mesmo tempo, construir uma mensagem compreensível para públicos que tomam decisões sobre crédito, investimento, políticas públicas, regulação, comércio e reputação. Comunicar bem não significa esconder problemas. Significa explicar o contexto, reconhecer o que precisa avançar e demonstrar o que os pecuaristas já fazem para conciliar produção, conservação, trabalho, renda e permanência das famílias no campo.
O avanço do projeto também mostra uma mudança na forma de representar o setor. Em vez de produzir uma agenda pronta e levá-la aos territórios, o Vozes começa pelas pessoas que vivem a atividade. O pecuarista deixa de aparecer apenas como objeto de normas, estudos ou cobranças e assume a posição de sujeito na construção das soluções. Outros atores continuam essenciais, mas entram no processo para ouvir, interpretar, testar possibilidades e ajudar a remover barreiras reais.
A Pecuária Tropical pelo Clima nasceu do desejo de unir história, responsabilidade e futuro. Em 2024, encontrou inspiração numa experiência territorial consolidada. Em 2025, levou a voz dos produtores a Brasília. Em 2026, percorreu territórios, registrou percepções e ampliou alianças. Agora, a reunião de setembro deverá organizar esse aprendizado e indicar os próximos passos. Quanto mais a sustentabilidade estiver ligada à realidade de quem trabalha na terra, maior será a possibilidade de transformar compromisso em prática duradoura, em maior escala nacional e expandir a qualidade para o mercado internacional.








