MENU
10 de junho de 2026

Queda da desigualdade acelera crescimento do país, diz economista

A desigualdade no Brasil é um problema grave que impede o desenvolvimento do país. O economista Pedro Fernando Nery defende a redução da desigualdade como forma de acelerar o crescimento econômico e construir uma sociedade mais justa.
Fonte: REUTERS/Amanda Perobelli

Passados mais de 80 anos de criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituída por meio de decreto-lei assinado por Getúlio Vargas (1943), o Brasil ainda tem muita dificuldade em colocar no mercado de trabalho formal grupos vulneráveis, como mulheres, jovens e negros. A avaliação é do economista Pedro Fernando Nery, diretor de Assuntos Econômicos e Sociais da Vice-Presidência da República e consultor legislativo.

O mercado de trabalho e as desigualdades sociais são alguns dos pontos tratados por Nery em entrevista à Agência Brasil. Ele lançou no mês passado o livro Extremos: um mapa para entender as desigualdades no Brasil, onde retrata e analisa realidades de oito destinos, nas cinco grandes regiões do país, que percorreu para entender e mostrar o que afasta uns brasileiros de outros brasileiros.

A seguir os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil: No livro, há um trecho que diz “se um marciano viesse à Terra e tivesse que conhecer um país para entender a realidade do planeta, o Brasil seria a melhor opção.” Se o marciano o abduzisse e em meio a um passeio espacial perguntasse: “Como é o Brasil?”. O que diria?

Brasília (DF) 01/05/2024 - Economista Pedro Fernando NeryFoto: Pedro Fernando Nery/Linkedin
Fonte: Pedro Fernando Nery/Linkedin

Pedro Fernando Nery: O Brasil é o microcosmo do mundo em relação à distribuição de renda. Isso quer dizer que a distribuição de renda do Brasil se sobrepõe à própria distribuição de renda do planeta. Se considerarmos que alguém que está, por exemplo, no 1% mais rico dos brasileiros tende a estar entre o 1% mais rico dos terráqueos e a mesma coisa vale para os 10% mais ricos ou para a metade mais pobre.

Então, nesse sentido, a desigualdade que temos no Brasil sintetiza a desigualdade que há no planeta.

Agência Brasil: Qual foi a maior surpresa, impacto ao visitar os oito destinos para produção do livro?

Pedro Fernando Nery: Eu acho que o que mais surpreende é uma certa resiliência que o brasileiro tem. Quando eu imagino extrair determinado sentimento, como insatisfação ou indignação, de algum cidadão [entrevistado], ele demonstra otimismo. Está na moda a palavra ‘resiliente’, que é até um pouco um termo importado, mas acho que a palavra que estamos mais acostumados no Brasil é ‘fé’. Não fé em sentido religioso, mas de uma certa esperança, um otimismo realista de que dias melhores virão.

Às vezes, em situações de muita miséria, de muita tragédia, a expectativa das pessoas é de que as coisas vão melhorar. E eu acho que esse é um traço muito marcante da nossa cultura e da nossa sociedade.

Agência Brasil: Geralmente quando falamos de desigualdade estamos pensando sempre em desigualdade de renda. Não é só dessa desigualdade que trata o livro. Mas a renda é o principal fator?

Pedro Fernando Nery: A renda é uma desigualdade que está relacionada a outras e, às vezes, é a causa. Por exemplo, uma pessoa que não tem dinheiro pode morar mal. Fundamentalmente, a renda é uma desigualdade mais fácil de medir do que outras. Há mais dados de renda do que sobre habitação, por exemplo. Por isso, o foco em renda é tão relevante. Não à toa, o presidente Lula fala muito em ‘colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda’. Acho que essa ideia é um mantra adequado para a nossa realidade.

Parte da desigualdade que a gente tem no Brasil é uma desigualdade artificial, não precisaria existir. O Brasil poderia ser melhor se tivéssemos cobertura boa dos problemas sociais dentro dos setores mais pobres da população e tivéssemos um sistema tributário justo que cobrasse de forma adequada cada um de acordo com a sua renda, em vez de aliviar para quem ganha mais.

Agência Brasil: Esta quarta-feira, 1º de maio, é Dia do Trabalhador. Quanto que o mercado de trabalho gera de desigualdade entre os brasileiros?

Pedro Fernando Nery: O trabalho é uma fonte fundamental de desigualdade, não apenas pela desigualdade salarial que é gerada, mas pelas barreiras que existem na própria inserção do trabalhador no mercado de trabalho. Se olharmos, por exemplo, o alcance do emprego formal notaremos que quem mais consegue esse tipo de emprego são normalmente homens, brancos e do centro-sul do país.

Temos dificuldades muito grandes de colocarmos no mercado de trabalho formal, grupos vulneráveis como mulheres, jovens e negros.

Então, uma parte da desigualdade se encontra aí, entre quem consegue superar essas barreiras, como a barreira de educação, e quem está fora. Isso, de novo, tem um pouco a ver com as discussões sobre o sistema tributário.

Sabemos que a tributação no Brasil é muito pesada sobre o emprego. Não à toa, a gente vê na proposta do governo para regulamentar a situação dos trabalhadores de aplicativo uma tentativa de tornar a tributação menos dura e permitir que haja proteção previdenciária, dentro de um regime que não onere tanto a sua remuneração.

Agência Brasil: O senhor escreve no livro que “a desigualdade é uma forma ineficiente de organizar a economia: é possível aumentar o bem-estar médio da população reduzindo a desigualdade.” O Brasil poderia ser mais desenvolvido se 80% mais pobres pudessem usufruir de benefícios e privilégios comuns aos 20% mais ricos?

Pedro Fernando Nery: Com certeza. A pesquisa científica e a experiência internacional mostram que a redução da desigualdade e o crescimento econômico podem andar juntos. Fundamentalmente, penso que desigualdade é desperdício. Há excesso de recursos em famílias, instituições e cidades que não precisam tanto, e há escassez de recursos em outras partes e lugares.

Podemos imaginar um caso trivial: por exemplo, os alimentos que sobram em banquetes, enquanto crianças passam fome. Essa privação cotidiana vai afetar o desenvolvimento cerebral, a trajetória escolar e a trajetória no mercado de trabalho. Se as habilidades cognitivas e não cognitivas não foram desenvolvidas adequadamente na infância, vai afetar a trajetória futura das crianças.

A redução de desigualdade pode andar junto com o crescimento do Produto Interno Bruto, pode inclusive ser uma fonte de aceleração do crescimento da economia. Quando a gente está reduzindo a desigualdade, a gente está fazendo a economia crescer, nem que seja a economia das periferias, a economia das cidades mais pobres, a economia das famílias mais necessitadas.

Agência Brasil: A economista francesa Esther Duflo, vencedora do Prêmio Nobel em 2019, opina que a cobrança de imposto sobre a fortuna de super ricos e o aumento da tributação de multinacionais foram incorporados ao espírito do tempo, não é mais de direita ou esquerda, e podem gerar meio trilhão de dólares para financiar políticas públicas de mitigação de impactos da crise climática sobre populações e países pobres. No Brasil, há um potencial distributivo no topo da pirâmide socioeconômica. Estamos próximos de ter consenso em aumentar a taxação dos mais ricos?

Pedro Fernando Nery: Eu acho que alguma convergência existe, né? Isso está na pauta do atual governo e estava, em algum grau, na pauta do governo anterior. Em 2021, o ex-ministro Paulo Guedes chegou a enviar um projeto de tributação de lucros e dividendos para o Congresso Nacional.

Agência Brasil: Quais as expectativas distributivistas quanto à regulamentação da reforma tributária?

Pedro Fernando Nery: A regulamentação da reforma tributária é um marco muito importante em relação à redistributividade por três motivos. O primeiro é que tende a reduzir a tributação sobre os mais pobres, visto que equipara a tributação de consumo de produtos e de serviços.

Hoje, serviços são menos tributados. As diferentes modalidades de serviço são tipicamente algo que os mais ricos consomem mais. Um segundo ponto é a mudança da tributação da origem para o destino das mercadorias. Isso vai ajudar os estados mais pobres.

Mas o que é mais fundamental é o cashback, que pode beneficiar cerca de 70 milhões de brasileiros. A expectativa é de que o cashback garanta a devolução do pagamento de 100% para os gastos com botijão de gás, 50% para contas de serviço como energia elétrica e água, e de 20% para outros produtos. Estamos falando de devolução do que é pago em tributo numa escala bem larga para boa parte da população.

Agência Brasil: O seu livro pode inspirar políticas públicas? O que os governos federal, estaduais e municipais poderiam fazer?

Pedro Fernando Nery: Tem muita coisa que pode ser feita de imediato, acho que tem um cardápio grande de medidas que pode ser feito relativamente sem tanta controvérsia política. É claro que a gente tem temas mais duros, como mexer com tributação de lucros e dividendos, mas existem temas mais simples, como, por exemplo, mudar os planos diretores da cidade para permitir que trabalhadores jovens estejam mais perto dos centros de emprego.

Gilberto Costa – repórter da Agência Brasil
Compartilhe a postagem:

Postagens relacionadas

A pecuária pelos pecuaristas: voz do campo na sustentabilidade

A Pecuária pelos Pecuaristas

A pecuária brasileira, símbolo de progresso, enfrenta desafios ambientais, mas mantém sua relevância social e econômica. O setor se transforma, adotando tecnologias e sistemas integrados para a sustentabilidade, com a produção tropical a pasto como diferencial. O artigo ressalta a importância de comunicar essa realidade e dar voz aos pecuaristas, reconhecendo-os como protagonistas nas discussões sobre desenvolvimento territorial e segurança alimentar, u…

Leia mais...
Chapa de deputado federal é definida com nomes do grupo de Mendes

Federação União Progressista define chapa de deputado federal com nomes do grupo de Mendes

A Federação União Progressista (União Brasil e PP) definiu a composição da chapa de deputado federal. A lista inclui nomes da cúpula de confiança do ex-governador Mauro Mendes e do governador Otaviano Pivetta. Lideram a chapa a ex-primeira-dama Virginia Mendes, o deputado federal Fábio Garcia e a suplente de federal Gisela Simona, todos do União Brasil. Dois ex-deputados federais, Victório Galli e Nilson Leitão, ambos do PP, também compõem.

Leia mais...
Lei do Auxílio-Alimentação: Câmara de Cáceres propõe revogação

Presidente da Câmara e Mesa Diretora propõe revogação da Lei do Auxílio-Alimentação

O presidente da Câmara de Cáceres, vereador Flávio Negação (MDB), e a Mesa Diretora, propõem a revogação da Lei do Auxílio-Alimentação aos agentes políticos, no valor de R$ 1.700. A proposta será apresentada na próxima segunda-feira, 08 de junho. A medida, já sancionada pelo Executivo, visa atender à manifestação popular e reforçar o compromisso com o diálogo e a transparência. Flávio Negação ressaltou a importância da escuta pública no processo político-administrativo, demonstrando sensibilidade às demandas da sociedade cacerense.

Leia mais...
Sessão da Câmara de Cáceres: projetos para idosos e crianças

Sessão da Câmara de Cáceres em pauta: projetos para idosos e proteção de crianças

A sessão da Câmara de Cáceres, marcada para segunda-feira (08/06), às 8h, incluirá a leitura de novos projetos de lei. Entre eles, o PL nº 20/2026 institui o programa ‘Viva a Melhor Idade’ para a valorização da pessoa idosa. O PL nº 21/2026 cria o ‘Escola que Protege’, visando treinar profissionais da educação para identificar sinais de abuso contra crianças e pré-adolescentes. Dezenas de indicações e requerimentos, como recapeamento asfáltico e plantão 24 horas na Delegacia da Mulher, também serão apresentados ao Executivo municipal.

Leia mais...
Cáceres na FIT Pantanal 2026: município destaca potencial turístico

Cáceres participa da FIT Pantanal 2026 e destaca potencial turístico

O município de Cáceres participa da FIT Pantanal – Feira Internacional de Turismo do Pantanal, edição 2026, que teve início em 03 de maio, em Cuiabá. Com um estande temático, Cáceres destaca sua identidade, cultura, tradição e belezas naturais. O espaço valoriza a biodiversidade pantaneira, o artesanato local e a hospitalidade, além de promover o Festival Internacional de Pesca Esportiva (FIPe), que chega à sua 43ª edição e será realizado de 03 a 05 de …

Leia mais...
plugins premium WordPress