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2 de novembro de 2026

Uso do Solo: Campo e Cidade São Um Só Território

O uso do solo impacta cada metro quadrado, do campo à cidade. Estudos revelam como a ocupação do solo altera o clima, a água e a vida em Cáceres e no Pantanal. Superfícies vegetadas permitem infiltração de água e resfriam o ambiente, enquanto asfalto e concreto causam enchentes e ilhas de calor. Pastagens bem manejadas são aliadas climáticas.
Uso do solo campo e cidade: impacto no clima de Cáceres e Pantanal
Internet - Reprodução

Muitas vezes se fala em uso do solo como se fosse um assunto restrito à zona rural — mas ele está presente em cada metro onde pisamos, seja na lavoura, na pastagem, no asfalto ou no telhado das casas. Estudos desenvolvidos por instituições como Embrapa, INPE, UFMT e organizações globais de pesquisa climática mostram com clareza como as diferentes formas de ocupar o solo alteram o clima, a água e a vida em todo o território, inclusive em Cáceres e região do Pantanal.

Quando comparamos o funcionamento do solo coberto com vegetação saudável às superfícies que cobrem as cidades, a diferença é muito clara. Nas pastagens bem cuidadas, entre noventa e cem por cento da água da chuva penetra no solo, alimenta nascentes, lençóis freáticos e mantém os rios com volume constante. Já sobre asfalto, concreto e telhados, menos de dez por cento da água consegue infiltrar; todo o resto escorre rapidamente, causa enchentes e carrega lixo e poluição diretamente para os cursos d’água.

Em relação à temperatura, o solo com vegetação resfria o ambiente naturalmente, deixando o clima de cinco a oito graus mais fresco. Já as superfícies impermeáveis formam as chamadas ilhas de calor, fazendo com que a temperatura fique de seis a dez graus mais alta — em regiões de clima tropical como o nosso, essa diferença pode chegar até doze graus nos dias de maior calor.

Outro ponto fundamental é o armazenamento de carbono: as pastagens bem manejadas guardam de meio a mais de três toneladas de carbono por hectare ao ano, ajudando a equilibrar o clima. Já as áreas cobertas por construções não absorvem nada; além disso, a fabricação de asfalto, cimento e materiais de construção emite grandes volumes de gases de efeito estufa. A vegetação também mantém a umidade natural do ar, essencial para a formação de chuvas e para a saúde das pessoas, enquanto a impermeabilização deixa o ar mais seco e agrava problemas respiratórios. E enquanto o solo coberto de plantas preserva micro-organismos e toda a vida que mantém a terra fértil, o solo totalmente coberto por construções perde completamente a sua atividade natural.

Os estudos da Embrapa Pantanal reforçam um ponto muito importante: pastagens manejadas corretamente não são áreas degradadas — são grandes aliadas do equilíbrio climático. Ao contrário do que se imagina, o gado, quando criado em pastagens recuperadas, devolve nutrientes ao solo, estimula o crescimento das plantas e ajuda a guardar carbono na terra — algo que a impermeabilização total jamais consegue fazer.

A forma como ocupamos o solo também influencia diretamente o consumo de energia e os custos para toda a população. Áreas com muito asfalto e pouca vegetação exigem até trinta por cento mais gasto com energia elétrica para resfriamento de ambientes, por causa do calor excessivo das ilhas de calor. Além disso, a impermeabilização total obriga o poder público e as famílias a investirem valores muito maiores em sistemas de drenagem, contenção de enchentes e recuperação de danos — custos que são muito menores onde o solo continua permeável. Também não podemos esquecer que toda a produção de asfalto, cimento, telhas e estruturas de construção consome grandes quantidades de energia e emite poluentes desde a sua fabricação, um impacto que não existe na manutenção de áreas com vegetação nativa ou pastagens bem cuidadas.

Esses dados mostram que não existe uso do solo rural e uso do solo urbano separados: o que fazemos em uma parte do território reflete imediatamente na outra. Quando cobrimos tudo com concreto na cidade, alteramos o clima e o ciclo da água da mesma forma que quando retiramos a vegetação no campo.

O grande equívoco é culpar apenas uma atividade ou um setor. A solução está em reconhecer que as pastagens bem cuidadas, as áreas de preservação e o trabalho dos produtores rurais são fundamentais para manter o equilíbrio de todo o município; que a cidade também tem o seu papel essencial de manter solo permeável, árvores e respeitar as áreas naturais dentro do seu próprio espaço; e que pequenas ações fazem toda a diferença em qualquer lugar: deixar partes da calçada com terra e grama, plantar e preservar árvores, não ocupar margens de rios — tudo isso ajuda o solo a cumprir a sua função de regular o clima e a água para todos.

O equilíbrio climático de Cáceres e do Pantanal não depende só de um lado: depende de entendermos que o solo é um só, e que cuidar dele onde quer que ele esteja — seja na pastagem ou na calçada — é cuidar de nós mesmos.

Cáceres No Ar

Dra. Fernanda de Arruda Machado

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